domingo, 11 de janeiro de 2015

FILHA

Arrumava as coisas do pai naquele quartinho de um prédio na Tijuca, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Um quartinho simples do apartamento pequeno em que ele morava sozinho, o espaço do prédio reservado a porteiros. Não havia muita coisa ali, senão uns vinte livros, um computador de 5 ou 6 anos, poucas roupas, todas simples, alguns objetos de uso pessoal, material de limpeza... Enfim, coisas básicas, que não podem faltar em uma casa.
Naquele espaço contíguo revelava-se uma personalidade simples, que dava especial valor à leitura; o que ela achava estranho era não encontrar nada que ele tivesse escrito ali até que, retirando o colchão da cama, encontrou o caderno de duzentas folhas.
Pois é, ali estava parte do que ela procurava: o caderno onde o pai escrevia e não a deixava ver quando ela o visitava. Ali estavam as poesias, as músicas e os contos, os quais ele com tanto zelo guardava.
- Mas o meu pai escreveu tanta coisa, não caberia tudo num só caderno. Cadê o resto? - pensou.
Como Maria estava cansada, sentou-se na cadeira simples que um vizinho jogara fora e o seu pai pegou para ele. Aliás, quase tudo na casa eram objetos descartados pelos moradores do prédio. Sentada ali ela foi folheando o caderno, lendo algumas poesias, músicas e contos que ele havia escrito.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

EXCESSO DE CRIATIVIDADE

- Tudo bem, Barton?
- Tu... tudo bem.
- Que pergunta idiota que eu fiz a você, não é? Se estivesse tudo bem, você não estaria aqui. Mas deixa eu pegar aqui a sua ficha... Aqui! Você é escritor, tem 50 anos, casado e com uma filha adolescente, certo?
- Certo.
- E esta é a sua primeira consulta com um psiquiatra?
- Sim.
- Bom, então me diga, Barton. Qual é o motivo de você vir aqui?
- É que eu escrevo, doutor...
- Isso eu já sei. O que eu quero saber agora é: qual é o seu problema exatamente? Tem relação com o seu trabalho?
- Totalmente.
- Continue, fique à vontade.
- Então, doutor... É que eu estou passando por uma crise de criatividade.
- De falta?
- Aí é que está o absurdo, doutor. É crise de excesso de criatividade.
- Excesso? Eu já recebi muitos pacientes, conhecidos até internacionalmente, com crise de falta de ideias para escrever; agora, com excesso, você é o meu primeiro paciente. Até pela coincidência do seu nome com o do personagem daquele filme de 1991 que não consegue escrever um roteiro para o cinema.
- Pois é, agora o senhor veja...
- Senhor, não, Barton. Vamos evitar tanto distanciamento. Me chame de Luiz.
- Tudo bem: Luiz.
- Mas, me diga: como é a sua rotina profissional?
- Bom, eu escrevo uma história em quadrinhos diariamente para um jornal aqui do Rio de Janeiro, Tenho vários livros de ficção publicados, sendo que alguns de contos; um blog com mais de 1.000.000 de visitações, faço roteiros para cinema, teatro, componho músicas, jingles pra comerciais...
- Ufa! Bastante coisa, hein, Barton? Imagino que para tudo isso tem que ter muita criatividade.
- Pois é, Luiz, este é o problema. Eu não consigo rejeitar trabalho e não é nem por dinheiro, porque isto não me falta. O problema é: estou viciado em escrever!
- Você tem certeza disso, já se acha assim?
- Sim, o tempo todo eu tenho uma ideia! Noutro dia eu estava compondo uma música, a pedido de um cantor, e me veio a ideia de um conto, uma história sobre cães da periferia de São Paulo que estão "cãoversando". Uma comédia, né? Pois eu larguei a música pela história canina, terminei-a e esqueci o que eu estava fazendo inicialmente. Fui então escrever umas poesias, mas como eu estava cansado, resolvi deitar mais cedo, o que é exceção na minha vida. Quando já havia passado da meia-noite o cantor me ligou e perguntou sobre a música, cujo acordo era de ela ser entregue nesse mesmo dia. Resultado: "virei" a noite escrevendo.
- Mas conseguiu?
- Consegui, mas fiquei na bagaça, não dormi nem uma horinha, porque tinha que me encontrar com um diretor de cinema pra conversar sobre um roteiro que ele queria que eu escrevesse. Acabei com o café da produtora onde ele trabalha...
- Bom, então vamos lá no começo de tudo, Barton. Me diga: Quando você começou com esse negócio de escrever?
- Ah, Luiz, desde que eu me entendo por gente... Meus avós paternos me incentivaram, eu diria até me forçaram, a ler livros, principalmente os do Monteiro Lobato, desde cedo. Depois vieram as leituras diárias de jornal, as revistas, e por aí vai. E então eu comecei a escrever umas histórias, que no começo não eram tão boas assim, e também fazer umas poesias.
- E quando você decidiu levar a atividade literária a sério?
- Sério, sério, mesmo, só aos 42 anos.
- Que é isso, Barton?
- Ah, é o meu bloquinho de anotações. É que eu tive agora mesmo uma ideia...
- Mas se alguém deve anotar algo aqui, sou eu, não você! Aqui você não é escritor, é o meu paciente.
- Não, não é isso! É que eu estou anotando a ideia de um conto...
- Negativo, aqui não! Estamos num consultório, entendeu? Consulta, do you understand?
- Ah, claro, desculpa... Isto é pra você ver como está a minha situação, Luiz.
- É, eu entendo. Mas não é por isso que eu vou aceitar! É falta de respeito comigo, procure se controlar.
- Claro.
- Então, voltemos: você só começou a levar a sério esse negócio de escrever aos 42 anos, certo?
- Isso. Antes era só um sonho, um hobby que eu queria que virasse profissão. Eu escrevia nas redes sociais, quer dizer, no "falecido" Facebook. Postava nele minhas poesias, meus contos e até arriscava uns raps. Não dava muito "ibope", sabe? Uma ou outra curtida e mais nada. Até que eu recebi o cartão de um editor e consegui lançar o meu primeiro livro, um só de contos. Daí em diante...
- As coisas fluíram, não é?
- Exatamente. Apesar de o brasileiro não ser lá muito chegado a uma leitura, o livro vendeu bem, mas o mais importante foi a visibilidade que ele me deu. Daí eu vendi duas histórias dele pra televisão, uma garotada produziu alguns contos na internet, os convites foram aparecendo cada vez mais... Até eu chegar ao estado em que me encontro hoje, Luiz.
- Me fale mais sobre esse seu estado.
- Pois é. Antes era só alegria, por fazer o que eu sempre sonhei. Se eu acreditasse em Deus, diria que era a vida que eu pedi a ele. Mas o tempo foi passando, os trabalhos aumentando, eu sem saber dizer não, quando eu não podia cumprir tal tarefa. Aí, quando eu vi, já estava viciado...
- A primeira coisa que você tem que exercitar, Barton, é a sua capacidade de dizer não, de não assumir com outrem um compromisso que vai lhe sobrecarregar. A segunda coisa é você dizer não a você mesmo.
- E como eu faço isso, Luiz?
- Quando você souber que não pode, diga não. Simples assim.
- Você acha?
- Isto é só o começo, claro. É o seu primeiro exercício. E lamento dizer que o seu tempo acabou.
- Acabou? Pena... Mas obrigado, Luiz! Até semana que vem.
- Até... E não esqueça o seu bloquinho, Barton.
- Ah,claro, tchau!
- Tchau.
Um mês depois:
- E como vamos, Barton?
- Aquele negócio do "não", como você tem visto, não está funcionando. Eu acabo me sabotando, questionando a minha decisão, e quando eu vejo, volto atrás.
- E como foram os últimos dias com a família, Barton?
- Vai tudo de mal a pior, Luiz! Antigamente eu ainda saía com a família, mas comecei a pegar ou até inventar mais trabalho, deixando, cada vez mais, de dar atenção à minha esposa e à minha filha. Até na hora "H" eu não me concentrava totalmente...
- E a sua esposa reclama?
- Muito! Se acostumou "mal" com o desejo que eu tinha toda hora por ela.
- Mas não pode ser também problema de saúde?
- Nada, Luiz! Eu fico cheio de tesão por ela o tempo todo. Só que na hora "H"...
- Você falha?
- Não, eu faço tudo rapidinho, pra voltar a escrever.
- Você se exercita?
- Me exercitava até a pouco tempo atrás, mas não fazia nenhum exercício sem parar a toda hora pra anotar algo. Depois que eu operei o quadril esquerdo, entrei no Boxe. Estava indo bem pra cacete, o professor me elogiando pela evolução rápida, mas aí eu comecei a me sabotar, a parar no meio o meu treino e até faltar às aulas, tudo pra escrever, anotar o que "brotava" na minha cabeça.
- Olha, Barton, eu vou receitar estes medicamentos pra ver se você diminui a sua ansiedade. Aqui está a receita.
- Obrigado, Luiz.
- E o seu tempo acabou, Barton. Até semana que vem.
- Até, Luiz.
Mais um mês depois:
- Como estamos, Barton?
- De mal a pior, Luiz. Continuo me enchendo de trabalho e não me dou descanso nem aqui. A sua secretária que o diga, que tem que apreender o meu notebook e até o meu bloquinho antes de eu entrar.
- É, eu pedi para ela. Pra ver se pelo menos aqui você sossega, não é?
- Eu estou demais, Luiz! Acredita que a minha esposa me abandonou? E ainda disse que só quer que eu dê a pensão para a minha filha, que ela não vai brigar por nada. Falou que o meu dinheiro não é sujo, mas é fruto de muito sofrimento. E eu a amo demais, sabe?
- Imagino. Do jeito que você fala aqui dela... Aliás, você é um típico homem de família, daqueles apaixonados pela sua.
- Amo muito a minha mulher e a minha família. Acredita que eu nunca traí, nesses 20 anos, a minha esposa? E olha que, apesar de eu não ser muito conhecido, tem umas mulheres maravilhosas que me reconhecem e me assediam. Chance não faltou, mas eu não quis, nunca precisei.
- Bom, Barton, vou ser muito sincero com você: achei que o seu caso seria de fácil solução, mas me enganei. De cara eu nem achei que seria necessário lhe receitar remédios...
- É, realmente está complicado... Mas o que você vai fazer comigo agora, Luiz?
- Vou continuar com os medicamentos, enquanto penso nos exercícios e atividades que poderão lhe ajudar
- Tudo bem, então.
- E o seu tempo infelizmente acabou, Barton.
- Então tá. Tchau!
- Tchau! E lembre-se: não vou desistir de você. Estou aqui para lhe ajudar a solucionar esse problema, não para lhe enganar, "comer" o seu dinheiro. Vou me empenhar até vencermos isso.
- Obrigado, Luiz. Até a semana que vem.
- Até, Barton.
- (Luiz pensando) Já faz quatro dias que o Barton esteve aqui. Como será que ele está agora? Ele saiu em péssimo estado daqui naquele dia, não posso deixá-lo chegar ao fundo do poço, tenho que encontrar uma solução para o seu problema. Mas qual? Já sei, tive uma ideia! Vou ligar agora pra ela.
- (voz feminina) Alô?
- Oi, Dedina, como vai?
- Eu conheço essa voz... Doutor Luiz! Como vai?
- Eu vou muito bem.
- A que devo a ligação do meu doutor predileto, aquele que me ajudou a vencer o câncer? Sem você eu não sei se superaria aquilo tudo, sabe?
- É o meu trabalho, Dedina, eu tenho o dever de dar o máximo pelos meus pacientes. Mas vamos ao motivo da ligação: você é a editora dos livros do Barton, não é?
- Isso mesmo.
- Pois é, Dedina, eu sei que o que faço agora pode até soar antiético, mas é por uma boa causa, pra ajudar um paciente nosso amigo que está em apuros. É o Barton.
- O Barton?
- Exatamente.
- É, eu tenho notado que ele não anda bem.
- Pois é, aí é que entra você na história.
- Como assim?
- Me diga: como anda o trabalho dele?
- Muito bom, bastante intenso! Acabei de ler o livro novo dele, de contos. Está excelente, vai ser outro sucesso. Com certeza virão muitas noites de autógrafos.
- Pois eu queria lhe pedir uma coisa e você está à vontade para responder não.
- É difícil dizer não para uma pessoa como você, que me ajudou tanto, Luiz.
- Negativo! Se a sua consciência não permitir, você tem o direito de negar.
- Vou pensar no seu caso, meu amigo... Mas, me diga: What can I do for you?
- Você pode fazer o seguinte: segurar o lançamento do novo livro do Barton por um três meses.
- Três? Mas por quê?
- Eu preciso deste tempo pra mantê-lo longe das atividades literárias, pra dar a ele um descanso, pra que ele possa reestruturar a sua vida, talvez até para mantê-lo vivo. Você viu o aspecto físico dele, não viu?
- É, realmente ele está um "caco". Magro, pálido... horrível, coitado! Mas o que tem a ver eu não lançar o novo livro dele com isso? Não só pioraria a situação?
- Eu não deveria, mas vou lhe dizer o problema dele. Ele está viciado em escrever.
- É estranho, mas não absurdo, Luiz. Ele não para quieto aqui na editora! Toda hora interrompe uma conversa para anotar algo. Diz que tem que anotar as ideias quando elas surgem.
- Pois vale a pena você ter num lançamento de livro um autor assim?
- É, é verdade. É melhor esperar que ele se recupere.
- Posso contar com você?
- Claro, meu amigo! Pode contar comigo. Vou esperar três meses para lançar o livro. Mas o que vou alegar pra ele?
- Diga que vocês estão passando por uma crise financeira, que a empresa pode ser negociada e por isso vai "segurar" os lançamentos até que se resolva a situação.
- Você pensa em tudo, hein, doutor?
- Então, estamos combinados?
- Claro, tô dentro!
- Muito obrigado, minha amiga! E não esqueça: ninguém pode saber disso!
- Fique tranquilo, ninguém vai saber.
- Então tá. Tchau!
- Tchau!
- (falando sozinho)Bom, agora eu vou ligar para outra pessoa que vai me ajudar muito.
- Alô?
- Oi, Jobson! Tudo bem?
- Luiz! E aí, meu veio?
- Quanto tempo, hein?
- É, bastante. Mas a que devo a honra?
- É que eu tenho um pedido para lhe fazer.
- Diga.
- É que eu preciso que você bloqueie tudo relativo a uma pessoa na internet.
- Caramba, doutor! Esse cara vacilou tanto assim contigo?
- Pelo contrário. É alguém que precisa muito da minha ajuda.
- E o que ele tem pra ter que se tomar medidas tão drásticas?
- É que ele está viciado.
- Imagino que não tem nada a ver com drogas, como era comigo, certo?
- Não, é que eu preciso que ele dê um descanso de qualquer coisa relativa à internet, pois ele não sai  da dita-cuja.
- É, entendo. É outro viciozinho desgraçado...
- Pois é, Jobson. Eu preciso que você mantenha o sujeito fora do ar durante três meses, só isto. Qualquer movimento dele ali, você acaba com a graça dele na hora. Posso contar com você?
- Claro, meu amigo! Fechado. Lhe devo essa.
- Deve nada, rapaz!
- Como não? Você me ajudou sem cobrar um só tostão! Sou só gratidão.
- Bom, já que você vê as coisas por esse prisma... Faz isso então pra mim e estamos quites, tá bom?
- Com o maior prazer! Me diz o nome dele?
- Barton Kalinin. As outras informações que possam lhe ajudar eu envio por e-mail.
- Por mim, tudo bem. Missão dada é missão cumprida, chefe!
- Obrigado, Jobson. Tchau!
- Tchau, doutor!

Três dias depois:
- Luiz, Luiz!
- Calma, rapaz! Isso é jeito de entrar no consultório, de me cumprimentar? Qual o motivo do desespero?
- Primeiro foi a internet, que há dois dias não consigo usar. Já tentei de tudo, mas não consigo reaver as minhas contas. Está tudo bloqueado!
- Procurou ajuda profissional?
- Procurei, fui a um tal de Jobson, que todo mundo diz que é pica nesses problemas específicos de informática e ele não conseguiu dar jeito. Hopeless...
- É, complicado...
- E como na Lei de Murphy, apareceu mais coisa ruim...
- O que foi dessa vez?
- O meu livro teve o lançamento adiado.
- Absurdo! Mas por quê?
- A Dedina disse que foi devido a cortes de custos na editora e que inclusive ela está para ser vendida.
- Mas ali está tão mal assim?
- É isso que eu acho estranho, porque ali vende livro pra caramba.
- Bom, fazer o que, meu caro Barton? Parece que você não está lá com muita sorte...
- É mesmo. A maré não está nada boa pra mim...
- Ou seria o contrário?
- O contrário?
- Isso tudo não limita a sua produção, diminui o seu trabalho?
- Pois se você não tem onde exibir o seu trabalho, não tem graça realizá-lo.
- É verdade.
- Pois então, agora você não tem como exercitar o seu vício.
- É, não pensei nisso... Sabe que eu não escrevo nada, nada mesmo, há dois dias?
- Pois é...
- E sabe que eu estou bem mais tranquilo?
- Então, Barton, aproveite o momento! Pense que e que aconteceu pode ser extremamente positivo.
- Verdade, concordo com você! Quer saber, eu já vou, tá?
- Calma, Barton! Faltam 20 minutos, rapaz...
- Não precisa. Vou "gastar" a minha paz na rua.
- Então, tá. Até a semana que vem, Barton.
- Tchau.
Uma semana depois:
- Olá, Barton!
- Oi, Luiz.
- Como estamos?
- Estou bem melhor. Acredita que eu escrevo praticamente nada há quase dez dias?
- Rapaz, eu já estou até com inveja dessa sua má sorte! Ela está fazendo o meu trabalho todinho.
- Nada disso, Luiz! Você é o cara.
- E o casamento?
- Ah, era isso que eu queria lhe contar! Minha esposa e a minha filha passaram lá no apart hotel onde estou hospedado, ontem. A minha filha me cantou até uma música linda que ela fez pra mim e não mostrou antes porque eu não lhe dava atenção, eu ficava só no meu mundinho, sabe? Até chorei...
- Que bom! Deve ter sido um momento único na sua vida.
- E foi.
- E a esposa?
- Ficou distante de mim, mas eu notei que ela sentiu que eu não sou mais o mesmo, que eu estou bem, aproveitando melhor a vida.
- Bom!
- E você não sabe da maior, Luiz: ela voltou lá, sozinha, no fim da tarde e não teve jeito. "Morreu"...
- Você quis dizer que ela morreu metaforicamente, não é?
- Claro! Foi ótimo...
- Eu tenho uma ideia pra lhe dar, Barton: por que você não aproveita o verão e viaja com a família? Tenta se reconciliar definitivamente com a sua esposa e sugere isto. Ela trabalha em janeiro?
- Férias coletivas. É professora.
- É, eu havia me esquecido... Mas olha que coincidência boa, rapaz! Aproveite a chance, fique sem escrever por um tempo
- Sabe que você tem razão? Vou sugerir a ela a viagem.

No dia seguinte:
- Luiz?
- Sim, Jussara?
- O seu paciente Barton ligou do aeroporto desmarcando a consulta da semana que vem. Aliás, ele marcou por tempo indeterminado. Disse que seguiu o seu conselho e foi pro Taiti. Vai ficar lá pelo menos um mês.
- Ótimo! Obrigado, Jussara.
- De nada.
Dois meses depois:
- Olá, Barton! Como você está melhor, nem de perto lembra aquele que deixou o consultório há dois meses atrás.
- É, engordei. Quer dizer: ganhei peso saudavelmente. E ainda comecei a fazer Boxe e vou iniciar o Krav Magá.
- A arte marcial do povo judeu, o seu povo, não é?
- É, mas eu não sou o que pode se chamar de um judeu praticante. Até ateu eu sou...
- Somos ateus. Mas e a família?
- Ótima! Minha filha me mostrou quinze músicas que ela compôs. E eu nem sabia...
- E a esposa?
- Grávida. Um mês. Descobrimos ontem.
- Ótimo! Mas você não marcou o seu retorno aqui só pra isto; apesar de ser de extrema importância. Quero saber também da sua vida profissional, do seu vício. A quantas anda?
- Fiquei um mês e dez dias com a minha família. Durante este período eu não quis saber de nada. Quer dizer, eu escrevia uma ou outra poesia à noite, mas nada que representasse uma recaída. Quando voltei do Taiti ainda havia aqueles problemas com a Internet e a editora. Não esquentei a cabeça, deixei rolar, resolvi esperar mais um tempo. Pois faz dois dias que a Dedina me ligou, disse que está tudo certo para o lançamento e, por coincidência, todos os meus problemas de internet se resolveram, como num passe de mágica.
- Há coisas que só acontecem a você e ao seu Botafogo, Barton...
- É verdade... Mas eu posso dizer que agora eu estou menos ansioso, sabendo a hora de criar, e mais seletivo também. Agora eu sei a hora de dizer não, Luiz.
- Exatamente! Saber dizer não, quando necessário, é a chave do sucesso. Mas... peraí, Barton! O que é isso? Por que você pegou esse caderno? É uma recaída?
- Não, Luiz, calma! É apenas a sinopse de uma história que criei e quero que você veja e dê a sua opinião. O título é Excesso de Criatividade e eu vou contar tudo o que ocorreu desde que eu entrei neste consultório.
- Como se soubesse a história toda...
- O quê? Não entendi nada do que você disse, Luiz! Não gostou do título?
- Nada, adorei! Excesso de Criatividade? Bom título, mesmo. Mas me dá isso aqui e me deixa ler, vai!
FIM.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

ESPELHO

- Espelho!
- (bocejo)Ããããã! Isso são horas?
- Bom dia, Espelho!
- Bom dia é o escambau! Você quer dizer "boa madrugada", não é? Caceta, 05:30 da matina...
- Ah, Espelho... Você sabe que eu saio cedo pra trabalhar!
- E tem que me acordar uma hora dessas? Podia só se olhar em mim, ajeitar o cabelo, ver se a camisa tá amarrotada; mas não, tem que me encher o saco! Você sabe que horas eu fui dormir ontem? Serve 03:00 da manhã? Aliás, nem foi ontem, foi há duas horas e meia atrás!
- Caramba!
- Pois é, eu fiquei até essa hora com a patroa no "tatame". Tô cansado, véi! Ele quer toda hora...
- É, dá pra ver pela sua aparência, Espelho. Tá fosco, com umas ferrugens nas bordas... bagaça pura.
- Tudo bem, ela está me "sugando"; mas ajudaria se você gastasse um pouquinho comigo, não é? Custa me levar aí nessa vidraçaria ao lado? O tempo passa, porra! Há quanto tempo eu estou com você?
- Caramba! Desde a minha adolescência.
- Pois é, e você já tem quase quarenta. São vinte anos lhe servindo, véi!
- É que eu não tenho dinheiro, Espelho. Você sabe que eu ganho mal...
- Sai daquele emprego, então! Arruma coisa melhor.
- Era isso mesmo que eu queria falar com você, ouvir a sua opinião.
- Então fala logo, que eu quero dormir!
- É que ontem o encarregado do meu setor, que é o meu chefe, perguntou se eu não queria fazer parte da barca que está pra partir lá da empresa.
- Barca? É excursão pra Niterói?
- Não, pô, é barca entre aspas! É que o RH precisa diminuir o número de funcionários e ele quer saber se eu quero ser demitido. E aí, Espelho, o que você acha?
- Tá feliz trabalhando ali?
- Você sabe que não, Espelho. Eu não gosto de ser repositor.
- Está ali há o quê? Dez anos?
- Quase.
- Tudo bem que eu sempre achei ridículo uma pessoa ficar presa à empresa porque não quer "perder os direitos", como vocês dizem. Esse negócio de FGTS, férias e o cacete a quatro. Por isso você ficou tanto tempo ali, não foi?
- É.
- Então vamos lá; você ganha uns r$ 1.000,00 de salário, mas desconta a alimentação, o plano médico, o dentário e o transporte...
- Eu moro perto, não desconto o transporte.
- Tirando o transporte você ganha quanto, líquido?
- Uns R$ 800,00, R$ 820,00...
- Porra! Isso é dinheiro, cara?
- Se não fossem aqueles trabalhos de manutenção de micro eu tava ferrado...
- Se for demitido, você recebe quanto?
- Uns seis, sete mil...
- E quanto você ganha num dia bom consertando celular, notebook, tablet e o cacete a quatro?
- Pô, uns quatrocentos...
- Então vamos imaginar que você ganha uma média de R$ 250,00 por dia.
- Às vezes, mais.
- Mas vamos trabalhar com essa média diária. Bom, tirando o domingo de folga na semana, você trabalha 25, talvez 26 dias no mês; mas vamos calcular assim: 25 x 250 são iguais a R$ 6.250,00. Está bom pro senhor?
- Pra cacete...
- E não falta trabalho nesse negócio de computador, falta?
- Eu estou é rejeitando, porque não dá pra pegar todos os serviços.
- E você ainda está com dúvidas?
- Mas não é assim, Espelho! Tem que levar em conta que como autônomo eu não tenho direito a férias, plano de saúde, alimentação...
- Pra você tirar férias é só juntar um dinheirinho todo mês. Dá até pra dividir o período, ao invés de ficar 30 dias coçando o saco. E, mesmo com tudo isso aí que você citou, vai sobrar muito dinheiro. Isso se não aparecer mais serviço!
- Serviço é o que não falta nisso, Espelho.
- E eu nem falei que você vai mandar em si mesmo, não vai mais "engolir sapo", voltar puto pra casa...
- Mas e se eu ficar doente e não puder trabalhar?
- Faz previdência privada, desconta pro INSS, caramba! Você tá é com medo! Prefere roer o osso a ficar comer o filé.
- Porra, você tem razão!
- E se lembra que a sua esposa tá melhorando de vida, passou num concurso, vai ganhar bem mais que você... Pelo menos foi o que a minha esposa, a Espelha, me falou.
- É verdade, cara. Nem me lembra disso...
- Quer mais motivos pra aceitar a proposta do seu chefe, largar aquele osso?
- Não, chega! É o suficiente.
- E agora me deixa dormir, cara! Hoje é domingo, pô! Você trabalha hoje; eu, não.
- Valeu, Espelho!
- Valeu é o cacete! Depois você vai bancar um conserto, dar um upgrade em mim e na minha patroa, porra! Pensa que eu não sei que você tá de caô, que tem um bom dinheirinho guardado?
- Tá bom! Vou dar uma moral em vocês dois, mandá-los pra vidraçaria aqui do lado.
- Assim fica bonito...
- E agora deixa eu ir, cara!
- Vai lá.
- Fui, Espelho!
FIM.
ESPELHO DIVA

- Espelho! Espelhooooo!
- I am a man who would fight for your honor/ I'll be the hero your dreaming of/ We'll live forever/ Knowing togheter that we...
- Espelho!
- Ai, mona, que foi? Nem deixa eu cantar a música do Karate Kid II, aquele de 1986! Ai...
- Que voz, hein, Espelho? Não sabia que você cantava tão bem.
- Pois é, não é, mona? Nunca quis me ouvir, só preocupada com os meus conselhos, sem querer saber de mim...
- Ai, desculpa, amor!
- Eu também tenho sentimentos, tá? Sou sensível como as grandes artistas, as divas...
- Fiquei impressionada agora com você, com essa voz linda que você tem.
- Quer ouvir outra?
- Quero, sim!
- Non, rien de rien/ Non, je ne regrette rien/ Ni bien qu'on ma fait, ni le mal/ Tout ça m'est bien égal/ Non, rien de rien/ Non, je ne regrette rien...
- (aplaudindo)Gente, Edith Piaf! Que lindo!
-(chorando) Se Edith Piaf me emociona, imagina essa música, mona...
- Ai, Espelho, minha bicha, você tem talento! É uma artista pronta pra "explodir"!
- Menos aqui no meu mundo, não é, ma belle Frances? Aqui, como aí no seu lado, só tem lugar pras siliconadas desafinadas.
- Só muda o endereço, bicha...
- Ah, e outra coisa: não quero mais você me chamando de bicha, entendeu? Agora eu quero ser chamada de Diva... Quer dizer, diva para os íntimos. Vou me registrar como Espelho Diva; este vai ser o meu nome artístico.
- Ah, bi... quer dizer, Diva, você está ficando tão humilde... Assim o autor lhe deixa de lado, hein?
- Me deixar de lado? Há, há, há! Meu amor, ele sabe que eu sou a estrela da companhia, The Great, The Best; não tem coragem de fazer isso. Sem mim, ele não é ninguém.
- Xiiii, fala baixo, Diva! Vai que ele escuta...
- Mona, ele não tem coragem de me descartar. E se ele tem ainda alguma chance de fazer sucesso com mais dois ou três amigos do Facebook, se deve tudo a mim. Porque aquelas outras historinhas...
- Ai, coitado desse rapaz! Mal sabe que criou um monstro...
- Uma "monstra", querida! Uma "monstra" linda e talentosíssima. Mas, me diz, vai! O que você quer?
- É que eu estou com um probleminha...
- Ai, de novo vem você com os seus "pobreminhas"! O que uma loura natural, peituda, cinturinha fina, 102 cm de quadris, enfim, gostosa e ainda por cima com aquele deus de Ébano, aquele homem MA-RA-VI-LHO-SO que parece o Obama ainda no início do primeiro mandato, pode ter de "pobreminha"?
- Pois é justamente com ele...
- Ai, Meu Deus, como eu sou burra! Que outro problema poderia ter uma mulher inteligente, uma contadora de sucesso, tendo que pagar financiamento de carro, de casa, conta de celular, as contas desse governo perdulário de vocês, que mora em um país no auge da sua instabilidade política e louca pra engravidar do seu primeiro filho, que não a sua insegurança em relação ao seu marido?
- É que ele entrou na academia de Boxe, Diva, e só quer saber disso agora. Chegou até a pôr um saco de pancadas na varanda. Fica ali só de shortinho, treinando...
- Ai, imagino... Que pena que eu não posso ir lá pra ver. ui! Mas o que tem de mais nisso, ma belle Frances? Você está com medo do bofe?
- Não, que isso! Comigo ele é um gentleman. Apanhar mesmo é só na cama. Aqueles tapinhas de amor, sabe? E, além do mais, eu bato também.
- Então qual é o problema, mona?
- É que quem dá aula pra ele é uma professora; uma que tem um sobrenome parecido com Petkovic. Enfim, algo que tem "vic" no fim.
- E não pode ter professora de Boxe por quê? Mulher só pode dar aula de decoupage, crochê?
- Não, Diva, não é isso, não é preconceito! O problema é que ela é uma loura linda. Sabe aquele cabelo louro que brilha tanto no Sol que faz os nossos olhos doerem? Ela é assim. E toda atlética, sabe?
- E daí?
- E daí, Diva, é que eu fico com medo de ele se empolgar demais com ela! Ele fica toda hora falando das aulas, mostrando os golpes que ele ensinou, falando o nome dela...
- Ele só deve estar entusiasmado com as aulas, mona. Fica tranquila, meu amor, ele não vai lhe chifrar. Lembre-se: isto é coisa que põem na sua cabeça...
- Ai, bicha! Sem graça, tá?
- Bicha não, mona! É Diva, tá? D-I-V-A! Diva, entendeu?
- Entendi, mas fiquei com raiva da sua gracinha e fiz de propósito!
- Ai, que cascavel que você é! Mas voltemos ao assunto: você está preocupada que o seu Obama esteja lhe traindo, ou prestes a lhe trair com a professora de Boxe dele, certo?
- É.
- E quais os outros indícios que ele lhe dá, além de falar dela de vez em quando?
- Nenhum.
- Você já foi assistir a uma aula dele?
- Nunca. Ele me convidou pra assistir e até participar pra ver se eu gosto, mas eu não pude ir.
- Quer dizer que ele pretende lhe chifrar com a outra mona, mas lhe chama pra aula? Se eu quisesse chifrar um bofe, eu não o convidaria pra ir aonde justamente estaria a concorrência dele, não é? Mas, me diga: por que não fostes, mona?
- Porque eu ia pra academia, pra malhar. Você sabe...
- Eu sei, sim! Não é à toa que você é tão gostosa... Mas, se você anda tão preocupada com a concorrência, por que não foi? Você ia malhar do mesmo jeito. Ouvi dizer que Boxe é ótimo pra manter a forma.
- Eu sei, já li a respeito e até assisti a uma aula no Youtube. Mas é que eu gosto tanto da minha malhação...
- O seu Obama, ou melhor, o seu Nelson, aquele produtor de cinema e televisão talentosíssimo não reclama que vocês têm ficado pouco tempo juntos?
- É o mal dos tempos modernos, Diva...
- Pois então, por que não unir o útil ao agradável?
- É verdade...
- Ai, mona, você é tão complicada às vezes!
- É que eu amo tanto aquele homem, Diva...
- Eu entendo e até invejo isso. Esse amor de vocês é lindo, sabe? Ele também ama você com a mesma intensidade, pode ter certeza disso.
-(chorando) Eu sei, eu sinto isso...
- Então, ma belle Frances, minha Caterine Deneuve versão "uda"? Por que criar problemas?
- Uda?
- É, "uda". Peituda, coxuda, bunduda, xe...
- Diva!
- Ai, desculpa a piadinha, mona! Mas é que estamos numa história de humor, não é?
- Só você pra me fazer rir numa hora dessas...
- Mas repetindo a pergunta, ma chérie: por que criar problemas?
- É que eu tenho medo de perdê-lo...
- Mona, deixa de ser burra! O mesmo medo que você tem em relação a ele, ele tem em relação a você. Use isto a seu favor.
- Como?
- Faz o que ele tá pedindo, sua causadora de torcicolos! Vai fazer uma aula ali e aproveita pra mostrar que você também é linda, que pode deixá-lo preocupado também. Não tem outros homens na aula?
- Pelo que ele diz, lá tem muitos alunos e alunas.
- Então, põe aquela calça de lycra que deixa você mais gostosa que a Beyoncé e faz uma aula grátis! Garanto que você vai gostar...
- Da aula, claro.
- Da aula e dos bofes, sua louca! Deixa o seu Nelson, o seu Obama dos trópicos, preocupado também com você toda boa ali.
- Ah, isso é maldade, Diva!
- É nada, mona! Homem adora cheiro de homem. Essa eu tirei do Freud...
- Mas o meu Nelson gosta é de mulher, Diva!
- Eu sei! O que eu quero dizer é que o homem adora saber que tem concorrência, que o jogo nunca está ganho, que se ele bobear leva uma "bola nas costas", entendeu?
- É verdade, é o tempero da relação.
- Quando é a próxima aula, ma chérie?
- Daqui a pouco, às sete e meia.
- Então vai lá no armário, veste aquela calça de lycra branca que você tem e aparece ali de surpresa. Ele deu pra você o endereço?
- Deu. É a dois quarteirões daqui.
- Então, o que você tá fazendo parada aí? Vai se arrumar, mona! Já são quase sete da noite...
- Ah, vou sim, Diva! Lhe devo mais uma, né?
- E eu vou cobrar, tá?
- Vai me cobrar como?
- Você vai ter que me ouvir cantar pelo menos duas músicas todo dia.
- De quem?
- Britney Spears, Sertanejo Universitário, Funk Ostentação...
- Você está brincando comigo, Diva?
- Claro que estou, chérie! No meu repertório só entra Edith Piaf, Charles Aznavour, Beatles, Phil Collins, Adelle, Maysa, Chico Buarque, Dorival Caymmi e daí em diante.
- Ah, Bom!
- E agora vai, Frances, pelo amor de Deus!
- Tá bom, tá bom! Tchau, te amo!
- Te amo também, mona! E olha, não fica depois treinando Boxe na minha frente, não, hein? Se você me quebrar, vai ter sete anos de azar.
- Pode deixar, Diva! Não vou fazer isso, não.
- E agora vai, mona!
- Tchau!
FIM.