EXCESSO DE CRIATIVIDADE
- Tudo bem, Barton?
- Tu... tudo bem.
- Que pergunta idiota que eu fiz a você, não é? Se estivesse tudo bem, você não estaria aqui. Mas deixa eu pegar aqui a sua ficha... Aqui! Você é escritor, tem 50 anos, casado e com uma filha adolescente, certo?
- Certo.
- E esta é a sua primeira consulta com um psiquiatra?
- Sim.
- Bom, então me diga, Barton. Qual é o motivo de você vir aqui?
- É que eu escrevo, doutor...
- Isso eu já sei. O que eu quero saber agora é: qual é o seu problema exatamente? Tem relação com o seu trabalho?
- Totalmente.
- Continue, fique à vontade.
- Então, doutor... É que eu estou passando por uma crise de criatividade.
- De falta?
- Aí é que está o absurdo, doutor. É crise de excesso de criatividade.
- Excesso? Eu já recebi muitos pacientes, conhecidos até internacionalmente, com crise de falta de ideias para escrever; agora, com excesso, você é o meu primeiro paciente. Até pela coincidência do seu nome com o do personagem daquele filme de 1991 que não consegue escrever um roteiro para o cinema.
- Pois é, agora o senhor veja...
- Senhor, não, Barton. Vamos evitar tanto distanciamento. Me chame de Luiz.
- Tudo bem: Luiz.
- Mas, me diga: como é a sua rotina profissional?
- Bom, eu escrevo uma história em quadrinhos diariamente para um jornal aqui do Rio de Janeiro, Tenho vários livros de ficção publicados, sendo que alguns de contos; um blog com mais de 1.000.000 de visitações, faço roteiros para cinema, teatro, componho músicas, jingles pra comerciais...
- Ufa! Bastante coisa, hein, Barton? Imagino que para tudo isso tem que ter muita criatividade.
- Pois é, Luiz, este é o problema. Eu não consigo rejeitar trabalho e não é nem por dinheiro, porque isto não me falta. O problema é: estou viciado em escrever!
- Você tem certeza disso, já se acha assim?
- Sim, o tempo todo eu tenho uma ideia! Noutro dia eu estava compondo uma música, a pedido de um cantor, e me veio a ideia de um conto, uma história sobre cães da periferia de São Paulo que estão "cãoversando". Uma comédia, né? Pois eu larguei a música pela história canina, terminei-a e esqueci o que eu estava fazendo inicialmente. Fui então escrever umas poesias, mas como eu estava cansado, resolvi deitar mais cedo, o que é exceção na minha vida. Quando já havia passado da meia-noite o cantor me ligou e perguntou sobre a música, cujo acordo era de ela ser entregue nesse mesmo dia. Resultado: "virei" a noite escrevendo.
- Mas conseguiu?
- Consegui, mas fiquei na bagaça, não dormi nem uma horinha, porque tinha que me encontrar com um diretor de cinema pra conversar sobre um roteiro que ele queria que eu escrevesse. Acabei com o café da produtora onde ele trabalha...
- Bom, então vamos lá no começo de tudo, Barton. Me diga: Quando você começou com esse negócio de escrever?
- Ah, Luiz, desde que eu me entendo por gente... Meus avós paternos me incentivaram, eu diria até me forçaram, a ler livros, principalmente os do Monteiro Lobato, desde cedo. Depois vieram as leituras diárias de jornal, as revistas, e por aí vai. E então eu comecei a escrever umas histórias, que no começo não eram tão boas assim, e também fazer umas poesias.
- E quando você decidiu levar a atividade literária a sério?
- Sério, sério, mesmo, só aos 42 anos.
- Que é isso, Barton?
- Ah, é o meu bloquinho de anotações. É que eu tive agora mesmo uma ideia...
- Mas se alguém deve anotar algo aqui, sou eu, não você! Aqui você não é escritor, é o meu paciente.
- Não, não é isso! É que eu estou anotando a ideia de um conto...
- Negativo, aqui não! Estamos num consultório, entendeu? Consulta, do you understand?
- Ah, claro, desculpa... Isto é pra você ver como está a minha situação, Luiz.
- É, eu entendo. Mas não é por isso que eu vou aceitar! É falta de respeito comigo, procure se controlar.
- Claro.
- Então, voltemos: você só começou a levar a sério esse negócio de escrever aos 42 anos, certo?
- Isso. Antes era só um sonho, um hobby que eu queria que virasse profissão. Eu escrevia nas redes sociais, quer dizer, no "falecido" Facebook. Postava nele minhas poesias, meus contos e até arriscava uns raps. Não dava muito "ibope", sabe? Uma ou outra curtida e mais nada. Até que eu recebi o cartão de um editor e consegui lançar o meu primeiro livro, um só de contos. Daí em diante...
- As coisas fluíram, não é?
- Exatamente. Apesar de o brasileiro não ser lá muito chegado a uma leitura, o livro vendeu bem, mas o mais importante foi a visibilidade que ele me deu. Daí eu vendi duas histórias dele pra televisão, uma garotada produziu alguns contos na internet, os convites foram aparecendo cada vez mais... Até eu chegar ao estado em que me encontro hoje, Luiz.
- Me fale mais sobre esse seu estado.
- Pois é. Antes era só alegria, por fazer o que eu sempre sonhei. Se eu acreditasse em Deus, diria que era a vida que eu pedi a ele. Mas o tempo foi passando, os trabalhos aumentando, eu sem saber dizer não, quando eu não podia cumprir tal tarefa. Aí, quando eu vi, já estava viciado...
- A primeira coisa que você tem que exercitar, Barton, é a sua capacidade de dizer não, de não assumir com outrem um compromisso que vai lhe sobrecarregar. A segunda coisa é você dizer não a você mesmo.
- E como eu faço isso, Luiz?
- Quando você souber que não pode, diga não. Simples assim.
- Você acha?
- Isto é só o começo, claro. É o seu primeiro exercício. E lamento dizer que o seu tempo acabou.
- Acabou? Pena... Mas obrigado, Luiz! Até semana que vem.
- Até... E não esqueça o seu bloquinho, Barton.
- Ah,claro, tchau!
- Tchau.
Um mês depois:
- E como vamos, Barton?
- Aquele negócio do "não", como você tem visto, não está funcionando. Eu acabo me sabotando, questionando a minha decisão, e quando eu vejo, volto atrás.
- E como foram os últimos dias com a família, Barton?
- Vai tudo de mal a pior, Luiz! Antigamente eu ainda saía com a família, mas comecei a pegar ou até inventar mais trabalho, deixando, cada vez mais, de dar atenção à minha esposa e à minha filha. Até na hora "H" eu não me concentrava totalmente...
- E a sua esposa reclama?
- Muito! Se acostumou "mal" com o desejo que eu tinha toda hora por ela.
- Mas não pode ser também problema de saúde?
- Nada, Luiz! Eu fico cheio de tesão por ela o tempo todo. Só que na hora "H"...
- Você falha?
- Não, eu faço tudo rapidinho, pra voltar a escrever.
- Você se exercita?
- Me exercitava até a pouco tempo atrás, mas não fazia nenhum exercício sem parar a toda hora pra anotar algo. Depois que eu operei o quadril esquerdo, entrei no Boxe. Estava indo bem pra cacete, o professor me elogiando pela evolução rápida, mas aí eu comecei a me sabotar, a parar no meio o meu treino e até faltar às aulas, tudo pra escrever, anotar o que "brotava" na minha cabeça.
- Olha, Barton, eu vou receitar estes medicamentos pra ver se você diminui a sua ansiedade. Aqui está a receita.
- Obrigado, Luiz.
- E o seu tempo acabou, Barton. Até semana que vem.
- Até, Luiz.
Mais um mês depois:
- Como estamos, Barton?
- De mal a pior, Luiz. Continuo me enchendo de trabalho e não me dou descanso nem aqui. A sua secretária que o diga, que tem que apreender o meu notebook e até o meu bloquinho antes de eu entrar.
- É, eu pedi para ela. Pra ver se pelo menos aqui você sossega, não é?
- Eu estou demais, Luiz! Acredita que a minha esposa me abandonou? E ainda disse que só quer que eu dê a pensão para a minha filha, que ela não vai brigar por nada. Falou que o meu dinheiro não é sujo, mas é fruto de muito sofrimento. E eu a amo demais, sabe?
- Imagino. Do jeito que você fala aqui dela... Aliás, você é um típico homem de família, daqueles apaixonados pela sua.
- Amo muito a minha mulher e a minha família. Acredita que eu nunca traí, nesses 20 anos, a minha esposa? E olha que, apesar de eu não ser muito conhecido, tem umas mulheres maravilhosas que me reconhecem e me assediam. Chance não faltou, mas eu não quis, nunca precisei.
- Bom, Barton, vou ser muito sincero com você: achei que o seu caso seria de fácil solução, mas me enganei. De cara eu nem achei que seria necessário lhe receitar remédios...
- É, realmente está complicado... Mas o que você vai fazer comigo agora, Luiz?
- Vou continuar com os medicamentos, enquanto penso nos exercícios e atividades que poderão lhe ajudar
- Tudo bem, então.
- E o seu tempo infelizmente acabou, Barton.
- Então tá. Tchau!
- Tchau! E lembre-se: não vou desistir de você. Estou aqui para lhe ajudar a solucionar esse problema, não para lhe enganar, "comer" o seu dinheiro. Vou me empenhar até vencermos isso.
- Obrigado, Luiz. Até a semana que vem.
- Até, Barton.
- (Luiz pensando) Já faz quatro dias que o Barton esteve aqui. Como será que ele está agora? Ele saiu em péssimo estado daqui naquele dia, não posso deixá-lo chegar ao fundo do poço, tenho que encontrar uma solução para o seu problema. Mas qual? Já sei, tive uma ideia! Vou ligar agora pra ela.
- (voz feminina) Alô?
- Oi, Dedina, como vai?
- Eu conheço essa voz... Doutor Luiz! Como vai?
- Eu vou muito bem.
- A que devo a ligação do meu doutor predileto, aquele que me ajudou a vencer o câncer? Sem você eu não sei se superaria aquilo tudo, sabe?
- É o meu trabalho, Dedina, eu tenho o dever de dar o máximo pelos meus pacientes. Mas vamos ao motivo da ligação: você é a editora dos livros do Barton, não é?
- Isso mesmo.
- Pois é, Dedina, eu sei que o que faço agora pode até soar antiético, mas é por uma boa causa, pra ajudar um paciente nosso amigo que está em apuros. É o Barton.
- O Barton?
- Exatamente.
- É, eu tenho notado que ele não anda bem.
- Pois é, aí é que entra você na história.
- Como assim?
- Me diga: como anda o trabalho dele?
- Muito bom, bastante intenso! Acabei de ler o livro novo dele, de contos. Está excelente, vai ser outro sucesso. Com certeza virão muitas noites de autógrafos.
- Pois eu queria lhe pedir uma coisa e você está à vontade para responder não.
- É difícil dizer não para uma pessoa como você, que me ajudou tanto, Luiz.
- Negativo! Se a sua consciência não permitir, você tem o direito de negar.
- Vou pensar no seu caso, meu amigo... Mas, me diga: What can I do for you?
- Você pode fazer o seguinte: segurar o lançamento do novo livro do Barton por um três meses.
- Três? Mas por quê?
- Eu preciso deste tempo pra mantê-lo longe das atividades literárias, pra dar a ele um descanso, pra que ele possa reestruturar a sua vida, talvez até para mantê-lo vivo. Você viu o aspecto físico dele, não viu?
- É, realmente ele está um "caco". Magro, pálido... horrível, coitado! Mas o que tem a ver eu não lançar o novo livro dele com isso? Não só pioraria a situação?
- Eu não deveria, mas vou lhe dizer o problema dele. Ele está viciado em escrever.
- É estranho, mas não absurdo, Luiz. Ele não para quieto aqui na editora! Toda hora interrompe uma conversa para anotar algo. Diz que tem que anotar as ideias quando elas surgem.
- Pois vale a pena você ter num lançamento de livro um autor assim?
- É, é verdade. É melhor esperar que ele se recupere.
- Posso contar com você?
- Claro, meu amigo! Pode contar comigo. Vou esperar três meses para lançar o livro. Mas o que vou alegar pra ele?
- Diga que vocês estão passando por uma crise financeira, que a empresa pode ser negociada e por isso vai "segurar" os lançamentos até que se resolva a situação.
- Você pensa em tudo, hein, doutor?
- Então, estamos combinados?
- Claro, tô dentro!
- Muito obrigado, minha amiga! E não esqueça: ninguém pode saber disso!
- Fique tranquilo, ninguém vai saber.
- Então tá. Tchau!
- Tchau!
- (falando sozinho)Bom, agora eu vou ligar para outra pessoa que vai me ajudar muito.
- Alô?
- Oi, Jobson! Tudo bem?
- Luiz! E aí, meu veio?
- Quanto tempo, hein?
- É, bastante. Mas a que devo a honra?
- É que eu tenho um pedido para lhe fazer.
- Diga.
- É que eu preciso que você bloqueie tudo relativo a uma pessoa na internet.
- Caramba, doutor! Esse cara vacilou tanto assim contigo?
- Pelo contrário. É alguém que precisa muito da minha ajuda.
- E o que ele tem pra ter que se tomar medidas tão drásticas?
- É que ele está viciado.
- Imagino que não tem nada a ver com drogas, como era comigo, certo?
- Não, é que eu preciso que ele dê um descanso de qualquer coisa relativa à internet, pois ele não sai da dita-cuja.
- É, entendo. É outro viciozinho desgraçado...
- Pois é, Jobson. Eu preciso que você mantenha o sujeito fora do ar durante três meses, só isto. Qualquer movimento dele ali, você acaba com a graça dele na hora. Posso contar com você?
- Claro, meu amigo! Fechado. Lhe devo essa.
- Deve nada, rapaz!
- Como não? Você me ajudou sem cobrar um só tostão! Sou só gratidão.
- Bom, já que você vê as coisas por esse prisma... Faz isso então pra mim e estamos quites, tá bom?
- Com o maior prazer! Me diz o nome dele?
- Barton Kalinin. As outras informações que possam lhe ajudar eu envio por e-mail.
- Por mim, tudo bem. Missão dada é missão cumprida, chefe!
- Obrigado, Jobson. Tchau!
- Tchau, doutor!
Três dias depois:
- Luiz, Luiz!
- Calma, rapaz! Isso é jeito de entrar no consultório, de me cumprimentar? Qual o motivo do desespero?
- Primeiro foi a internet, que há dois dias não consigo usar. Já tentei de tudo, mas não consigo reaver as minhas contas. Está tudo bloqueado!
- Procurou ajuda profissional?
- Procurei, fui a um tal de Jobson, que todo mundo diz que é pica nesses problemas específicos de informática e ele não conseguiu dar jeito. Hopeless...
- É, complicado...
- E como na Lei de Murphy, apareceu mais coisa ruim...
- O que foi dessa vez?
- O meu livro teve o lançamento adiado.
- Absurdo! Mas por quê?
- A Dedina disse que foi devido a cortes de custos na editora e que inclusive ela está para ser vendida.
- Mas ali está tão mal assim?
- É isso que eu acho estranho, porque ali vende livro pra caramba.
- Bom, fazer o que, meu caro Barton? Parece que você não está lá com muita sorte...
- É mesmo. A maré não está nada boa pra mim...
- Ou seria o contrário?
- O contrário?
- Isso tudo não limita a sua produção, diminui o seu trabalho?
- Pois se você não tem onde exibir o seu trabalho, não tem graça realizá-lo.
- É verdade.
- Pois então, agora você não tem como exercitar o seu vício.
- É, não pensei nisso... Sabe que eu não escrevo nada, nada mesmo, há dois dias?
- Pois é...
- E sabe que eu estou bem mais tranquilo?
- Então, Barton, aproveite o momento! Pense que e que aconteceu pode ser extremamente positivo.
- Verdade, concordo com você! Quer saber, eu já vou, tá?
- Calma, Barton! Faltam 20 minutos, rapaz...
- Não precisa. Vou "gastar" a minha paz na rua.
- Então, tá. Até a semana que vem, Barton.
- Tchau.
Uma semana depois:
- Olá, Barton!
- Oi, Luiz.
- Como estamos?
- Estou bem melhor. Acredita que eu escrevo praticamente nada há quase dez dias?
- Rapaz, eu já estou até com inveja dessa sua má sorte! Ela está fazendo o meu trabalho todinho.
- Nada disso, Luiz! Você é o cara.
- E o casamento?
- Ah, era isso que eu queria lhe contar! Minha esposa e a minha filha passaram lá no apart hotel onde estou hospedado, ontem. A minha filha me cantou até uma música linda que ela fez pra mim e não mostrou antes porque eu não lhe dava atenção, eu ficava só no meu mundinho, sabe? Até chorei...
- Que bom! Deve ter sido um momento único na sua vida.
- E foi.
- E a esposa?
- Ficou distante de mim, mas eu notei que ela sentiu que eu não sou mais o mesmo, que eu estou bem, aproveitando melhor a vida.
- Bom!
- E você não sabe da maior, Luiz: ela voltou lá, sozinha, no fim da tarde e não teve jeito. "Morreu"...
- Você quis dizer que ela morreu metaforicamente, não é?
- Claro! Foi ótimo...
- Eu tenho uma ideia pra lhe dar, Barton: por que você não aproveita o verão e viaja com a família? Tenta se reconciliar definitivamente com a sua esposa e sugere isto. Ela trabalha em janeiro?
- Férias coletivas. É professora.
- É, eu havia me esquecido... Mas olha que coincidência boa, rapaz! Aproveite a chance, fique sem escrever por um tempo
- Sabe que você tem razão? Vou sugerir a ela a viagem.
No dia seguinte:
- Luiz?
- Sim, Jussara?
- O seu paciente Barton ligou do aeroporto desmarcando a consulta da semana que vem. Aliás, ele marcou por tempo indeterminado. Disse que seguiu o seu conselho e foi pro Taiti. Vai ficar lá pelo menos um mês.
- Ótimo! Obrigado, Jussara.
- De nada.
Dois meses depois:
- Olá, Barton! Como você está melhor, nem de perto lembra aquele que deixou o consultório há dois meses atrás.
- É, engordei. Quer dizer: ganhei peso saudavelmente. E ainda comecei a fazer Boxe e vou iniciar o Krav Magá.
- A arte marcial do povo judeu, o seu povo, não é?
- É, mas eu não sou o que pode se chamar de um judeu praticante. Até ateu eu sou...
- Somos ateus. Mas e a família?
- Ótima! Minha filha me mostrou quinze músicas que ela compôs. E eu nem sabia...
- E a esposa?
- Grávida. Um mês. Descobrimos ontem.
- Ótimo! Mas você não marcou o seu retorno aqui só pra isto; apesar de ser de extrema importância. Quero saber também da sua vida profissional, do seu vício. A quantas anda?
- Fiquei um mês e dez dias com a minha família. Durante este período eu não quis saber de nada. Quer dizer, eu escrevia uma ou outra poesia à noite, mas nada que representasse uma recaída. Quando voltei do Taiti ainda havia aqueles problemas com a Internet e a editora. Não esquentei a cabeça, deixei rolar, resolvi esperar mais um tempo. Pois faz dois dias que a Dedina me ligou, disse que está tudo certo para o lançamento e, por coincidência, todos os meus problemas de internet se resolveram, como num passe de mágica.
- Há coisas que só acontecem a você e ao seu Botafogo, Barton...
- É verdade... Mas eu posso dizer que agora eu estou menos ansioso, sabendo a hora de criar, e mais seletivo também. Agora eu sei a hora de dizer não, Luiz.
- Exatamente! Saber dizer não, quando necessário, é a chave do sucesso. Mas... peraí, Barton! O que é isso? Por que você pegou esse caderno? É uma recaída?
- Não, Luiz, calma! É apenas a sinopse de uma história que criei e quero que você veja e dê a sua opinião. O título é Excesso de Criatividade e eu vou contar tudo o que ocorreu desde que eu entrei neste consultório.
- Como se soubesse a história toda...
- O quê? Não entendi nada do que você disse, Luiz! Não gostou do título?
- Nada, adorei! Excesso de Criatividade? Bom título, mesmo. Mas me dá isso aqui e me deixa ler, vai!
FIM.