segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

ESPELHO GLORIOSO

- Espelho!
- Espelho não, rapaz! É Espelho Glorioso.
- Ah, foi mal... É Espelho Glorioso.
- Isso!
- E saudações alvinegras!
- A situação não está pra saudar nada, meu caro Manoel...
- Eu sei, mas a gente não pode perder a esperança.
- É verdade. Afinal, "só" estamos rebaixados e devendo R$ 1.000.000.000,00...
- É, você tem razão, tá difícil. Mas a gente tem que lutar para triunfar, vencer talvez o pior momento da sua história. E por falar em vencer, Espelho Glorioso: o Botafogo sai dessa?
- Não...
- Não?
- Calma, você me corta, pô! Quero dizer: não se levanta sem a sua torcida. Por melhor que seja o seu trabalho, a diretoria não vai conseguir nada sozinha.
- Você acha, Glorioso?
- Claro! Ou você acha que o Corinthians saiu da segundona pra se tornar campeão mundial como? Já viu a torcida deles, o "bando de locos"?
- Verdade...
- E o Atlético - MG, a mesma coisa.
- É mesmo, véi! Todos eles tiveram a torcida apoiando, além do bom trabalho das respectivas diretorias.
- A torcida do Botafogo, meu caro Manoel, é conhecida nacionalmente pelo seu desânimo. Ela não "banca" o time, não o "empurra". Só vai ao estádio quando o time está bem, e não como deveria, pois ainda assim está desconfiada.
- É...
- Você, por exemplo: qual foi a última vez que você foi ao estádio torcer pelo nosso Fogão?
- Cara... torcer, torcer, mesmo, foi em fevereiro de 2001. Foi na final do Rio - São Paulo no Maracanã, contra o São Paulo, quando a gente perdeu.
- Fevereiro de 2001? Cara, você tá de sacanagem! Daqui a dois meses vai fazer catorze anos! Catorze anos? Assim você assusta até quem tá lendo a história! Catorze anos...
- Calma, Glorioso!
- Calma? Você me pede calma? Mais de uma década pra ir ao estádio ver o time de coração, uma boa parte desse tempo morando perto do Maraca e me pede calma? Porra, se você morasse em Manaus eu eu entenderia, mas aqui no Rio de Janeiro? Aliás, nesse campeonato agora em que fomos rebaixados, os manauaras talvez tenham ajudado mais que os cariocas. O time teve 100% de aproveitamento na Arena Amazônia, durante o Brasileirão, com o pessoal indo em massa. Já aqui...
- Calma, Glorioso! Não precisa ficar assim comigo...
- Não precisa? Porra, você demonstra o seu amor assim, torcendo no sofá ou em bar, e isso quando para pra ver os jogos e ainda acha-se no direito de ficar sentido? Meu Deus, eu queria ver o saudoso Russão ouvindo isto de você! Ele ia te tacar é uma muleta...
- Mas o time não ajuda, cara!
- Não ajuda? E em 2007, não era bom?
- É, mas aí perdeu pro São Paulo no Engenhão...
- Tudo bem, a torcida encheu o estádio e o time fez aquele papelão, deu a Síndrome do Cagaço. Depois veio aquele doping, que a gente não sabe se foi mesmo, do Dodô. Aí a torcida ficou esmorecida e parou de apoiar o time, não é? Quer dizer: a torcida menos a sua ilustre figura, porque você não foi nem quando o time era líder do Brasileirão!
- É.
- Você nem tem mais argumentos, cara! Você ainda tem menos entusiasmo que o torcedor médio do Botafogo. A torcida é a alma do time, cara! Pega o exemplo da torcida do "Fra".
- Não, pega leve! A do " Fra", não!
- É  a do "Fra", sim! Não tem torcida igual à deste clube, Manoel, vamos ser verdadeiros! Lá mesmo, no já citado ano de 2007. Os caras estavam ameaçados de rebaixamento, aí veio o Papai Joel, o time deles começou a ganhar, a torcida enchendo o Maraca... Até que o clube ficou em terceiro e conseguiu se classificar para a Libertadores.
- Deslancharam depois daquela vitória sobre o São Paulo, que acabou sendo o campeão brasileiro, lá no Maraca.
- Pois é, enquanto éramos cotados pra ser campeões brasileiros e broxamos na derrota contra os tricolores paulistas, o Urubu por pouco não levou o título.
- Mas isso foi culpa dos jogadores e do Cuca. Aquela Síndrome do Cagaço...
- Mas será que seria assim se a torcida tivesse "adotado", "bancado" o time?
- Você tem razão. Faltou ali a torcida pra embalar o time.
- Mas vai falar isso pra um botafoguense! Só falta o cara bater em você... E eu nem vou falar do Brasileirão de 2011!
- Melhor, não. Mas em 2014 teve o jogo em que o Gigante voltou. Quase 60.000 no Maraca...
- Mas aquilo não durou muito. Logo depois o time mostrou que era fraco; e não dava mesmo pra bancar a equipe com aquela mulambada. Tanto que acabamos caindo pra Segundona.
- Mas e então, Glorioso? O que a gente pode fazer de efetivo pelo nosso Fogão?
- Cara, esse ano de 2014 foi o ano B, o ano do rebaixamento à série B pela segunda vez...
- Porra, Espelho Glorioso, isso eu já sei!
- De novo você me interrompe? Deixa eu terminar, cacete! Seguinte: se esse foi o ano B do Botafogo, 2015 pode ser o ano A, o da volta à série A; e também o ano V, o ano da virada, o da reconstrução e da construção de um clube verdadeiramente grande, como um Atlético Mineiro ou um " Curíntia", que partiram da série B pra, respectivamente, a Libertadores da América e a Libertadores e o Mundial de Clubes.
- E como a gente pode fazer isso, Glorioso?
- Bom, pra início de conversa, eu gostei dessa nova diretoria; mais ainda que o Capita, o Carlos Alberto Torres, faz parte dela. Mas a missão é muito difícil, cara! Pagar... pagar, não, equacionar uma dívida de R$ 1.000.000.000,00 é pica. Sozinha a diretoria não vai conseguir e periga o clube virar uma espécie de América e, na pior das hipóteses, falir.
- Caramba...
- Pois é. Agora a torcida vai ter que abraçar literalmente o Botafogo.
- Como assim " literalmente"?
- É, cara, abraçar... Torcedores botafoguenses dando as mãos e envolvendo o Engenhão num abraçaço.
- Até aí a ideia é boa. Mas e depois?
- Depois eu tive a ideia... - e quero que você a leve depois pra diretoria - de ser feita uma campanha com o titulo "Abrace o Botafogo", usando a foto da torcida envolvendo o Engenhão.
- Mas e depois?
- Depois a diretoria diminui os preços dos ingressos e convoca a torcida a ir ali; mesmo pra ver os jogos do Carioquinha, que eu não morro de amores, mas prepara o time para os jogos daquela "carne de pescoço mal cozida" que vai ser a série B.
- E mais o que, Glorioso?
- Também se atrairia mais sócios e incentivar-se-ia - gostou da mesóclise? - a compra de produtos e serviços com a marca do Botafogo, sendo a camisa oficial do futebol profissional o carro-chefe. E por último a venda da foto, a do abraçaço no Engenhão, como suvenir, como uma maneira de o torcedor, uma maneira de o torcedor ajudar o clube financeiramente e ter uma lembrança de uma época que pode ser a arrancada do clube que quer ser grande de verdade, e não se tornar um Mequinha. Tá na hora do torcedor mostrar se ama mesmo o clube.
- E qual é a minha parte nisso, Espelho Glorioso?
- Primeiro você se compromete a "empurrar" o time, a voltar a ter orgulho de torcer pelo Alvinegro, de vestir a camisa, ir ao estádio. Depois eu quero que você envie essas ideias que lhe dei à diretoria, como pedi antes.
- Vou sim, pode ter certeza!
- Palavra de botafoguense?
- Juro, Espelho Glorioso.
- Então assume o compromisso de ir ao estádio torcer pelo time, ao invés de ficar só na frente da televisão, como eles querem.
- Porra, Espelho Glorioso, eu já assumi o compromisso! Eu tenho palavra, vou "bancar" o time.
- Bom. Então começa a vestir a camisa oficial do Botafogo.
- É que...
- O quê?
- É que eu não tenho a camisa do clube...
- Tá de novo de sacanagem comigo! Não tem camisa do Botafogo? E aquela?
- Eu perdi no banheiro do clube, quando voltava da piscina.
- É triste, mas não adianta reclamar agora. Seguinte: pede uma pra sua esposa. Você faz aniversário agora, mesmo...
- Boa ideia!
- Quero também que você me traga cada comprovante do ingresso dos jogos em que você for.
- Tudo bem.
- Isso! E trata de mostra amor de verdade pelo nosso Botafogo, hein?
- Pode contar comigo.
- E agora me ajeita ali na frente da televisão. Tem programa esportivo e eles com certeza vão falar sobre o Botafogo.
- Pra já!
FIM.

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