ACORDA!
- Oi! O quê? O que é isso?
- Acorda, seu vagabundo!
- Quem tá falando?
- É o seu colchão, energúmeno!
- Que brincadeira idiota é essa? Pegadinha, é?
- Que pegadinha! É a vera, parça...
- Cadê a câmera?
- Câmera? Não tem câmera aqui, não.
(gritando): - Isso é sacanagem, hein? Quem fez isso? Vou olhar debaixo da cama, deve ter alguém escondido. O som vem daí. Ih, não tem nada aqui embaixo! Estranho...
- Acredita agora?
- Claro que não! É brincadeira que fizeram comigo, armação. (gritando)Aparece aí, vai! Vocês não me enganam com essa história de colchão. Isso não fala, não mexe. Só serve pra gente dormir em cima
- Olha, ontem à tarde eu já tive que pôr pra correr daqui a sua gata, que ficava afiando as garras em mim. Agora vou fazer o mesmo com você. Te prepaaaara!
- Qual foi? Por que tá balançando?
- Eu avisei pra você...
- Essa pegadinha é boa, hein? Será que eu vou ficar famoso?
- Famoso é o cacete!
- Vou entrar na pilha, então. E aí, colchão, o que você quer comigo?
- Tira o lençol aí embaixo do travesseiro.
- Tá bom, você que manda!
- Isso!
- Meu Deus, você tem olhos, nariz e boca!
- Bu!
- Sai!
- Olha aqui, seu vagabundo, seu energúmeno, seu mentecapto! Já são onze da manhã e eu tenho que aturar você em cima de mim. Onze horas! Enquanto você dorme aí, o povo trabalha lá fora. Sua mãe e seu pai estão lá, ralando pra lhe bancar!
- Quer dizer que além de você ter cara feia, dá bronca também?
- É que eu estou cansado de ver os seus pais preocupados com você, com o seu futuro. Dando esporros, dando conselhos. Tudo em vão.
- Mas isso é problema nosso, não seu.
- É meu também! Você fica dez horas em cima de mim. Se ainda fosse um doente, alguém que precisa... Mas é só a doença da preguiça! E estes lençóis, esta fronha? Tudo fedendo! Faz uma semana que eles estão aqui. Eu gosto de limpeza, não sou que nem você!
- Ah, Colchão, esqueci...
- Caramba, você é preguiçoso, mesmo! Assim não vai vencer na vida, vai ser um loser.
- Meus pais vão sempre me bancar, Colchão...
- Você acredita nisso? Pois ontem mesmo eu recebi a ligação, quando você deixou o sem fio aqui, de um primo meu, um colchão de um casal que morava na Tijuca e foi morar em Santa Cruz, ou melhor, numa comunidade da periferia de Santa Cruz, porque os pais dele se cansaram de sustentar os dois. Quer dizer, nem foi culpa da coitada; ela trabalha e ganha pouco e começou agora a estudar Edificações, mas pagou pelo erro dele também. O cara não soube aproveitar a educação que os pais deram pra ele e nem procurava trabalhar decentemente, se firmar num emprego, e os dois se encheram. Eles até disseram que por ela manteriam a ajuda por ela ser uma menina esforçada, mas não queriam sustentar mais o filho vagabundo, um irresponsável de 35 anos. E ela já está quase desistindo dele...
- É mesmo, Colchão?
- É. Agora veja a sua situação: 21 anos, só com o ensino médio, sem qualquer qualificação pra o mercado de trabalho e sem vontade de trabalhar.
- Mas eu estava trabalhando! É que eu ainda tava na experiência e eles resolveram diminuir o número de funcionários...
- Quem você quer enganar com esse seu discurso? É isso o que você põe quando preenche as fichas de emprego?
- Mas é a verdade...
- Você sabe que na verdade a culpa pela sua demissão naquele escritório foi sua, mesmo. Cacete, trabalhando no Centro da Cidade, 20 minutos de metrô daqui de Copacabana, só de segunda a sexta, com direito a feriadão, Carnaval, recesso de Natal e Ano Novo e você desperdiça?! Vai dizer que o trabalho era ruim?
- Tirando o salário, não. O ambiente era ótimo, todo mundo se respeitava ali e eu fiz um monte de parça.
- Quanto ao salário, é assim mesmo. No começo é pouco, mas à medida que você se esforça e estuda alguma coisa que sirva no serviço você cresce na empresa. Só que tem que ter paciência, não é?
- Caceta, você fala que nem a minha mãe!
- É que isso é tão óbvio que todo mundo que é sensato fala o mesmo, rapaz.
- É, o Xande me mandou a mesma letra...
- É aquele seu amigo que estuda Marketing?
- É um que se forma agora no fim do ano. Já estagia há algum tempo numa agência pica e pelo visto vai ser contratado por ela.
- Mas você não ia estudar isso com ele? Não fez o vestibular também?
- É que ele passou e eu, não. É que eu sou burro...
- Burro, não. Preguiçoso, indolente, sim. E, além do mais, você podia ter estudado numa faculdade particular. Você não queria era estudar.
- Nada a ver, Colchão...
- É preguiçoso, sim! Não entendo como um cara tão inteligente, tão perspicaz como você está assim, sem evoluir.Nesse nosso tempo de convivência eu tenho notado o quanto você enxerga além dos outros. Aquelas suas teorias da conspiração, por exemplo: antes do Edward Snowden surgir você já escrevia no Facebook que o pessoal que usava a Internet estava sendo espionado. Não deu outra...
- Essa eu acertei, mas não fiquei famoso.
- Ficar famoso igual a ele? Pra fugir pra Rússia?
- É, o cara largou até a namorada no Havaí e meteu o pé.
- Tem também essa sua teoria sobre as redes sociais, de que elas foram na verdade criadas pelas grandes nações, EUA à frente de tudo, com o intuito de manipular e monitorar as pessoas. E que caras como o Zuckerberg são apenas testas-de-ferro. Fora o questionamento que você faz sobre a morte do cinegrafista da Band. Como é que o sujeito que atirou foi filmado em todo o trajeto e menos no momento em que atira no Santiago com o rojão? E aquele que se vestia igual ao acusado e estava conversando com policiais momentos antes do crime? E a história dos Black Blocs? Só eles aparecerem que tudo melou nas manifestações.
- É, eu e uma meia dúzia reparamos as coisas...
- Então, cara? Você tem potencial, pode ainda ter um futuro decente, e não esse aí que lhe espera. Já pensou ter que sair de Copa e ir morar na periferia de Santa Cruz? Ou Japeri, ou Queimados, sei lá.
- É sinistro...
- Cara, eu não tenho bola de cristal, mas é o que provavelmente lhe espera se você não mudar agora o rumo da sua vida.
- Então eu faço o que, Colchão?
- Só vou lhe dar a dica porque gosto de você, cara. Seguinte: ontem à tarde eu também conversei com outro colchão amigo meu...
- Mó fofoqueirão você, Colchão! Vai disparar a conta do telefone e vão me culpar...
- Você quer que eu pare de falar agora? Se quiser, eu paro.
- Não, pô, fala aí!
- Então... - e não se atreva a me interromper de novo! - o cara que dorme nele é o dono de uma produtora pica, top de linha, de filmes.
- E daí?
- E daí que ele tá precisando de gente pra trabalhar ali.
- E é pra que, assistente de produção?
- Não, ele está desesperado atrás de um office boy. O antigo foi promovido.
- Porra, Colchão, office boy...
- Parça, é pegar ou largar esta chance. E, mesmo que indiretamente, você vai trabalhar com cinema e televisão, principalmente.
- Eu nunca vou ter chance de trabalhar diretamente com isso...
- Tá vendo como você é, cara? Além de preguiçoso, é pessimista! Claro que você pode se dar bem lá dentro. É só se esforçar, não fazer só o seu, ser polivalente.
- É, Colchão, você tem razão...
- E então, vai querer ou não? Olha que tem que ser rápido...
- Tá, vou lá ver o emprego. Fala aí o endereço.
- Cara, por coincidência a sua mãe ia falar desse emprego com você. Quer dizer: ela falou, não é? Só que você acordou, mijou e voltou pra aqui. Foi uma amiga dela que avisou. O endereço tá lá na mesa da sala.
- Porra, Colchão, você é parça, mesmo!
- Eu faço isso por mim também, cara! Quero que você me dê um pouco de descanso, fique menos horas em cima de mim.
- O que eu faço pra retribuir isso, cara?
- Primeiro: fecha essa porta do quarto, pra idiota da sua gata não me furar e me encher de pêlos. Depois troca esta roupa de cama suja. E por último abre essa merda de janela pra entrar um sol, tirar este cheiro de mofo que tá em mim!
- Valeu, Colchão! Missão dada é missão cumprida.
- Mas agora só fecha a porta e abre a cortina. Quero que você vá correndo pra produtora, pra pegar esse emprego. Mas fala que você tem nível médio de Inglês e não esquece de, se o povo lá já não souber, citar o nome da sua mãe, cara! A amiga dela é a esposa do dono.
- Vou lá, então!
- E olha!
- O quê?
- Se eles lhe contratarem, vê se trabalha de boa, hein? Não vai me deixar e nem a sua mãe mal com nossos respectivos amigos.
- Vou não.
- E nem tente me xisnovar, dizer que eu consigo falar, porque eu sei fingir. Ninguém vai acreditar em você; vai fazer papel de ridículo. E se você insistir, tentar arrancar a verdade, vai se dar mal. Eu tenho amigos, e se algo acontecer comigo, você nunca mais vai poder dormir num colchão.
- Pô, Colchão, me ameaçando? Vou fazer isso contigo, não!
- É só por segurança, sabe? É que nós colchões somos uma espécie de irmandade, na pior das hipóteses uma máfia. Ou você nunca ouviu sobre gente que morreu dormindo? Às vezes de infarto, outras caindo da cama...
- Calma, Colchão, sem noia! Não vou lhe xisnovar, já falei.
- Só por garantia, mesmo. Sem ressentimentos...
- Fiquei até com medo de você agora...
- Mantendo o nosso segredo, não precisa ter medo.
- Tá bom.
- Isso! E vai logo ver o emprego, vai!
- Valeu, fui!
FIM.
sábado, 20 de dezembro de 2014
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