E ME DEIXA COMER
- Jorge
- Fala, Cláudio.
- Tô bolado com um negócio aí...
- Então fala, pô!
- É a minha mulher, cara. Ela tá mudando muito.
- Ih, Claudião... Acha que tá levando chifre, é?
- Não, caramba! Nada a ver com isso.
- Então é o que, pô? O que lhe preocupa tanto assim? Olha o seu prato. Você nem começou a comer! A hora tá passando... Daqui a pouco a gente volta pro escritório.
- É que ela tá muito liberal...
- Liberal em que sentido? O que ela andou lhe sugerindo?
- Não, não é sacanagem, não, porra!
- Fala logo, cacete! Eu fico aqui falando com você e não como. Para de ficar "cozinhando", porra"!
- Aqui, cara. Olha a foto do que ela comprou e quer usar.
- Ca... Caramba!
- Que foi?
- É pequeno, hein?
- Tá vendo? Até você se assustou.
- Não, pô! Não é isso. Eu não estou assustado. É que me surpreendeu a esposa de um cara tão chato como você querer usar algo tão pequeno.
- Chato é o cacete, pô! Mas agora me diz: isto é biquíni que uma mãe de família use?
- Olha esta foto aqui no meu celular.
- Porra, é a sua mulher?
- De costas não dá pra ver a cara, não é? Mas é ela, sim. Não é menor do que o da sua esposa?
- Porra, você a deixa ir assim com você à praia?
- Deixo e gosto. Se bem que eu não mando porra nenhuma. Ela é dona do próprio nariz, trabalha, ganha praticamente o mesmo que eu; usa o que quiser e eu não tenho nada a ver com isso.
- Cara, você é muito moderno.. Mas você disse que gosta. Foi isso que eu ouvi?
- É, eu gosto de vê-la nesse biquíni da foto.Costumo dizer que nele ela tapa o cofrinho e deixa a Casa da Moeda toda à mostra. Aliás, fui eu que comprei. Eu compro quase todos.
- Vo.. você tá de sacanagem comigo?
- Tô lhe falando...Antes ela usava biquínis comuns; isso quando se bronzeava, que era muito de vez em quando. Naquele fim de mundo onde a gente morava era difícil, não tinha clube e a praia mais perto dali estava sempre muito poluída. Além disso o povo dali que nos era mais chegado só falava em igreja. Tipo lavagem cerebral, mesmo. Mal chegamos pra morar aqui mais perto e fomos logo à praia. Só que ela ainda tinha aquele ar provinciano, meio de roça. Só biquíni tapa-bunda... E aí eu resolvi compra um menor. Ela de início não queria, masacabou usando e eu fui comprando uns cada vez menores. Até chegar a isso aí que você vê.
- Eu vejo é quase nada aqui, Jorge!
- Deixa a sua mulher usar um fio dental, Cláudio! Deixa de ser chato, caretão...
- Porra, todo mundo fica olhando!
- E daí? O que é bonito é pra ser visto!
- É o cacete! Nenhum malandro vai ficar olhando a bunda da minha mulher assim, não! Eu não sou otário.
- Porra, assim você me ofende!
- Desculpa, mas é inevitável, véi! Como alguém deixa a esposa usare, pior, comprar pra ela um biquininho desse?
- Você não gosta de olhar a mulher dos outros?
- É.
- E a minha mulher não fica gostosa nesse biquíni?
- Qua'é, Jorge?
- Só estou lhe fazendo uma pergunta!. Custa responder?
- Pô. eu lhe respeito, cara...
- Olhar não tira pedaço, cacete! Responde logo, vai! Vou ficar puto mesmo se você me atrasar pro escritório.
- Tá.
- Tá, o quê?
- Tá, ela é gostosa! Aliás, eu sempre achei a sua esposa gostosa.
- Então, olhar tira pedaço?
- Não, mas fiquei sem graça.
- Deixa a sua esposa ser feliz, Cláudio! Deixa ela usar o que quiser! Eu não fico regulando as roupas que a minha usa, não. E é cada uma menor que a outra. E cada decote... Mas eu já fui ciumento. Não como você, claro! Você beira a neurose. Nunca fui assim, mas já impliquei. Hoje eu até gosto de ver a minha mulher chamativa, provocante.
- Você é pervertido, Jorge!
- Que mané, pervertido? Eu deixo a minha esposa ser feliz, sensual, se sentindo gostosa, desejada. Deixo-a livre pra não perdê-la de vez. E o sexo, então... Enquanto isso está você aí, travadão. Desse jeito acaba tomando uma bola nas costas...
- Vira essa boca pra lá!
- Não, é sério. Você é muito inseguro, cara! Tem que relaxar mais, usar a Lei de Marta Suplicy.
- Ley de Marta Suplicy?
- É, relaxa e goza...
- Ah, não sei, cara...
- Vai dizer que ela não reclama deste seu jeito?
- Reclama, fala que assim não dá; que me ama, mas vai acabar me deixando.
- Pois é, é aquilo o que eu disse: quanto mais prende, maia perde. Muda enquanto é tempo, cara! Deixa a sua esposa usar logo esse biquíni da foto... E para de controlar o que ela veste, vai!
- Caramba, cara, você tem razão! Eu estou estragando o meu casamento por causa de ciuminho babaca.
- E aí, vai deixar?
- Vou.
- Depois, quando você vir a marquinha, vai acabar gostando.
- Não gosto muito desta ideia, não, mas vou ceder.
- E me deixa comer.
- O quê?
- A comida, cara...
FIM.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
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