Um Dia Sem Fúria
Estava contando à mulher a ideia de um conto que teve.
Falava entusiasticamente para ela que, deitava na cama, não lhe dava a menor atenção. Desvia-a para a filha e a sobrinha, que jantavam. Ela gritou:
"Eduarda, come a comida! Senão eu desligo a televisão."
Olhou para ela, que continuou "solenemente" para ele, mantendo a bronca na filha para não ouvi-lo.
Pela menos aquela era a impressão que ele tinha, pois sempre que tratava de assuntos menos fúteis aquilo acontecia.
Saiu irritado do quarto, mas antes parou na porta e falou para a esposa:
- Seria melhor você dizer que eu falo demais, além desses assuntos não serem lá muito interessantes pra você. Seria mais educado da sua parte!
Ela, como a própria dizia, "calada estava, calada ficou."
Mais irritado ainda, foi para o computador, para passar para ele as ideias que estava tendo.
Sabia que as histórias - assim como as poesias e composições - tinham que ser desenvolvidas na hora em que "brotavam", sob pena dele não se lembrar de nada depois.
Mesmo que isso lhe custasse horas de sono.
Sentado ali, à frente da máquina, começou a digitar.
Influenciado que fora pela "discussão" com a mulher, teve um bloqueio de ideias. Tudo o que ele pensara antes havia lhe escapado.
Num momento de megalomania, se sentiu o Barton Fink, personagem do filme - de mesmo nome - dos Irmãos Coen.
Achou melhor ir dormir, pois forçando nada sairia.
Acordou na manhã seguinte, se levantou da cama e foi dar uma olhada no jornal. A manchete era sobre a absolvição pelo crime de formação de quadrilha dos mensaleiros, assunto que ele já havia ouvido na rádio no dia anterior.
Estranhamente, não se interessou pelo assunto.
Logo ele, que na véspera havia se indignado com tudo.
Mas ele não estava nem aí, e foi direto para os quadrinhos e, em seguida, para a coluna social.
Fugia dos assuntos sérios, só queria saber de amenidades.
Achou aquilo tudo muito estranho. Logo ele, que achava aquelas partes do jornal desinteressantes.
Mas se sentia calmo, e isso era o que interessava.
Ligou o rádio, para ouvi-lo enquanto preparava o café.
Quem falava era o Ricardo Boechat, jornalista conhecido pela sua contundência e por falar o que lhe "dava na telha" - daí o excesso de processos que o cara sofria por sujeitos que em qualquer lugar decente do mundo estariam trancafiados para sempre na cadeia -. Ele considerava o radialista um cara na contra-mão de uma imprensa "pau mandada".
E o Boechat estava falando - melhor, criticando - exatamente sobre aquela vergonhosa absolvição, que estava na manchete dos principais jornais.
E ele, que adorava ouvir o radialista e as suas críticas mordazes aos "podres poderes", não aturou aquilo nem 5 minutos e trocou de estação de rádio.
- Tá mais pra Boechato. - Disse consigo mesmo.
Boechato? Foi o que ele disse?
Definitivamente, algo estranho acontecia com ele.
Pôs em uma daquelas rádios de "sala de espera de consultório", que sempre tocam as mesmas músicas, mas que ele gostava por ajudarem-no a treinar o seu ainda claudicante Inglês.
A musica que tocava ali era "Is This Love", do Bob Marley, que ele adorava.
Mas mesmo assim ele achou um saco e trocou de novo de estação.
Sintonizou em uma daquelas rádios em que o locutor "gritava o tempo todo, como se os ouvintes fossem surdos".
Tocava uma daquelas músicas de carnaval "pula-pula", baianas, na moda naquele período pré momesco.
E, por incrível que pareça, ele gostou da mesma, a ponto de bater o pé no chão.
Foi ao quarto dar um beijo na esposa, que estava de folga no trabalho, e dar até logo.
- É a Ana Maria Braga? - Ele perguntou a ela.
- Ana Maria Braga? - ela pensou, achando estranho ele não falar "Chata" no lugar de "Braga".
Ele parou e assistiu a um pouquinho do programa.
Era alguma virose, não era possível...
Mas ele estava se sentindo muito bem.
Saiu de casa e nem reclamou - em altos brados, como de costume - da sujeira em que se encontrava o corredor e a frente do prédio, que havia sido lavado há três dias e tinha ficado assim devido a um vizinho louco - louco mesmo, até com laudo médico -, mas que não rasgava dinheiro, tampouco não tinha noção das besteiras que fazia, e era superprotegido pela mãe. O deixava o prédio daquele jeito andando descalço, cuspindo no chão e soltando o cão, que mijava no meio do corredor, entre outras besteiras.
Nada daquilo o abalou, e saiu feliz em direção ao trabalho.
Pegou o metrô, que como sempre estava lotado.
No vagão o calor era insuportável, pois o ar condicionado, se tinha, estava muito fraco.
E para variar a composição parava a toda hora, com o condutor explicando que era devido ao tráfego mais à frente.
A viagem demorada e o calor insuportável fizeram alguns passageiros passarem mal.
E ele ali, todo suado.
Mas nenhuma palavra contra o governador, cuja esposa era advogada da empresa que tinha a concessão do metrô do Rio de Janeiro.
- Como eles responderam à TV Globo em nota, vão chegar logo novos vagões.- Disse ele para uma senhora em pé, que reclamava de toda aquela relação promíscua.
Antes de chegar ao trabalho encontrou tempo para postar no face uma daquelas mensagens edificantes, lindinhas, com uma bela paisagem ao fundo.
Os mais chegados no face perguntaram se era ele mesmo, ou a filhinha de 8 anos que errou de conta.
- Claro! É o mesmo de sempre. - Respondeu. - E tenham um belo dia, de paz e realizações.
Por estar digitando no celular, não viu o monte de lixo que estava sobre a calçada, escorregou e quase caiu.
Era a greve dos garis, que já durava três dias.
- A prefeitura do Rio faz o melhor - Pensou.
Chegando ao trabalho foi logo ao banheiro e nem reclamou com o rapaz da limpeza, que só repunha o refil do sabonete líquido quando a chefia estava na área.
Os colegas de empresa estavam reunidos, indignados por não terem recebido a premiação por produtividade, que era um 14º salário por terem batido a meta estabelecida pela empresa no ano anterior.
A empresa alegava que eles não tinham batido aquela meta, mas gente de lá de dentro informara-os do contrário.
Sabedores do espírito de liderança dele, o chamaram para falar com o chefe.
Ele declinou e disse: - A empresa deve ter suas razões.
- É, tipo a viagem que o patrão fez à Europa, né? - ironizou um colega de trabalho.
- Quero me meter nisso não, gente. - Ele finalizou.
O pessoal achou-o tão estranho que nem contra-argumentou. Aliás, foi tão esquisita a reação deles que todos se retiraram, resignados.
Almoçou e, como de costume, foi tomar açaí.
Já estava com os R$ 5,00 na mão, quando notou que o preço do mesmo havia mudado para surreais R$ 9,00!
Era a inflação da Copa do Mundo, diziam por aí.
Mesmo assim não pestanejou e pagou os "módicos" 9,00.
Na volta o mesmo sufoco da ida no metrô, e nem uma palavra de descontentamento.
Pelo contrário, ele defendia a empresa, sempre que reclamavam do serviço.
Perigo de pegar um passageiro mais exaltado, e descontar nele a raiva toda.
Chegando em casa ele reparou no portão com defeito.
Era o louco marrento, que quebrou o portão em uma de suas crises.
Até a vizinha que nada dizia do cara que dava prejuízo no prédio - cuja mãe pagava uma taxa de condomínio a cada 3 meses - reclamou, explicando o que o dito cujo fizera ali.
E ele, nada.
E foi o mesmo que ele fez quando o destruidor do prédio passou por ele e o encarou, louco para levar porrada de novo.
Apenas entrou em casa, de forma pacata.
Conversou futilidades com a esposa, como era do agrado dela.
E ela estranhou que ele continuasse do mesmo jeito de manhã, e até puxou assunto de assuntos mais relevantes, com conteúdo.
E ele nem aí, curtindo o funk ostentação da novela.
Aquilo a deixava realmente preocupada: - Será que ele enlouqueceu? - Se perguntou.
Ele tomou banho, não "procurou" a mulher - como era de costume - e, antes de dormir, compartilhou no face uma imagem de uma mulher obesa, de biquíni na praia, com o seguinte texto: "Adoro transar com flamenguista".
Mas antes fez o comentário:"kkkkkkkkkkkk..."
Deitou-se cedo, sem nem escrever no face uma de suas poesias, a maioria críticas em relação à política.
Acordou na manhã seguinte e ligou o rádio, que ele deixara na rádio "pula-pula".
- Que merda de rádio é esta? - Indagou.
Mudou para a Band News, onde falava o Boechat naquele momento.
Ouviu tudo enquanto tomava o café da manhã, não deixando de comentar sozinho alguma coisa.
Tomou banho, arrumou-se e, já saindo, notou que a televisão do quarto estava ligada, sem ninguém.
É que a sua mulher, que já tinha saído, a esquecera assim.
E naquele momento passava o programa da Ana Maria Braga.
- É a Ana Maria "Chata"... - Resmungou.
Desligou-a e saiu para o trabalho.
Chegando à frente do prédio notou que a porta de alumínio que protegia o hidrômetro faltava.
Disse alguns palavrões em alto e bom som, pegou a escada, subiu até a câmera e retirou a prova com as gravações do que ocorrera ali - e que ele já até sabia quem tinha feito - na frente do prédio para levar à polícia.
Definitivamente ele estava de volta.
Fim.
domingo, 25 de maio de 2014
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