terça-feira, 23 de dezembro de 2014

ESPELHINHO

- Espelhinho!
- Que foi, Duda? (bocejando)Ãããããããã!
- Ah, sei lá que dia é hoje! Só sei que você me acordou sete e meia da manhã. E num domingo!
- Eu sei, mas você sabe o número do dia?
- Não.
- Dia 12 de outubro é o quê?
- Sei lá! É dia 12 de outubro.
- Você não ganhou nada hoje?
- Eu acordei agora, Dudinha! Nem tomei café ainda.
- Eu ganhei presente!
- Ué, hoje não é o seu aniversário...
- É o dia da gente, Espelhinho! É o Dia das Crianças!
- Ih, é hoje! Me esqueci.
- Eu ganhei sabe o quê?
- Sei lá! Para de enrolar e fala logo.
- Patins.
- Que maneiro, Dudinha! Era o que você queria, não era?
- Era. Meus pais deram direitinho o que eu queria. E você, vai ganhar o quê?
- Sei lá.
- Seus pais não falaram nada?
- Não. Só se eles estão escondendo de mim, pra fazer surpresa.
- Você pediu o quê?
- Um kit de futebol com bola e traves.
- O chato é que os meus pais ficaram implicando comigo, por eu brincar com os patins no quintal, fazendo barulho. E os seus pais, Espelhinho, reclamam muito de você?
- Ontem o meu pai reclamou.
- Por quê?
- Porque eu fiquei com medo de dormir sozinho por causa da chuva, dos relam...Como é que a gente chama isso?
- Relâmpago. Aprendi na escola na semana passada.
- É, relâmpago. Mas aí eu fui lá pro quarto deles e bati na porta. Tava mó silêncio... Aí o meu pai soltou um palavrão, minha mãe abriu a porta pra mim e ele disse: "Que saco, Espelhinho, você é mó empata! Por causa de você vou ficar no 0 x 0 hoje, não vai ter gol."
- É?
- Mó estranho, né? Será que os meus pais jogam pelada no quarto?
- Pelada?
- É, futebol, bola.
- Não sei, Espelhinho. Mas sabe que eu também queria saber o que os meus pais fazem no quarto?
- É?
- É, mó esquisitão. Minha mãe chega cansada da loja, fica reclamando, dizendo que é a primeira a chegar e a última a sair, que ela sustenta a roubalheira do governo... Aí o meu pai, que quando não escreve no caderno, faz naquele notebook, reclama que ela reclama demais, aí ela fala que ele não dá atenção a ela, que se ele gostasse dela ia ouvir as reclamações e concordar... Aí eles discutem pra caramba e depois fazem mó silêncio no quarto. Só a  minha mãe que faz uns barulhos estranhos.
- Estranhos?
- É, uns gemidos, sei lá. Será que a minha mãe passa mal no quarto?
- Eu é que vou saber, Duda?
- É mesmo. E eu ainda não falei tudo. Aí o meu pai fala pra ela na manhã seguinte, no café, que o que eles fazem no quarto inspira um monte de histórias dele.
- O que o seu pai escreve, Dudinha?
- Tem história de tudo quanto é jeito. Tem um tal de ero...
- Que isso?
- Sei lá. Noutro dia ele estava na casinha dele, escrevendo... E você sabe que ele não gosta que eu passe lá dentro quando ele escreve, né? Então, eu entrei lá quando ele foi pro banheiro e vi na tela:"Conto eroti...". Só que eu não me lembro o resto, não deu pra ver direito porque ele saiu do banheiro e eu saí correndo.
- Seu pai trabalha em casa, né?
- É, ele é escritor.
- E ele não brinca com você?
- Muito pouco. Ele diz que não tem tempo, que é pra eu sair com a Etelvina, a minha
babá. Nem parece que ele tá em casa, nem nota que eu existo... Se pelo menos eu tivesse um irmão! Meu pai é chatão, todo sério, Espelhinho...
- Meu pai também fala isso.
- Fala?
- É, ele diz que o seu pai enche o saco dele quando quando tá se olhando na frente dele. O meu pai diz que ele pede conselhos, aí ele dá e o seu faz tudo errado depois. Aí o meu pai fica com raiva, reclama que o seu faz tudo ao contrário e aí reclama até da empregada de vocês, que não limpa ele direito, que passa mal a flanela... Aí ele fica de cara feia o resto do dia.
- Por que os nossos pais são tão mal humorados, Espelhinho?
- Não sei. Mas até que a minha mãe não é tão mal humorada. Mas ela reclama um pouquinho da sua mãe.
- O que ela fala?
- Que quando a sua mãe tá se olhando nela ela "despeja" tudo, só fala de problema. Mas eu ouvi também meu pai e minha mãe conversando no outro dia e ela dizia que a sua mãe falava tudinho que fazia no quarto com o seu pai.
- É mesmo?
- É. Ela também reclamou do biquíni da sua mãe, que deixava uma marquinha bem pequenininha. Aí o meu pai sorriu e ela deu mó tapão no braço dele.
- É mesmo, minha mãe usa um biquíni pequenininho. E que compra pra ela é o meu pai, é mole? Aí ela fala que o meu pai é um pevestido.
- Pevestido? O que é isso?
- Sei não.
- Nossos pais são estranhos, né, Dudinha?
- É. Mas você não vai saber o que ganhou?
- Não. Deixa os meus pais acordarem.
- Mas você sabe o que eu queria ganhar mesmo, Espelhinho?
- O quê?
- Um irmãozinho.
- Mas aí você ia tá velhona quando ele tivesse com 7 anos, como a gente tem agora.
- É, mas eu ia me distrair com ele, ajudar a cuidar...Não ia ficar sozinha, né?
- Chatão ficar sozinho...
- Espelhinho!
- Ih, é o meu pai me chamando! O que ele quer comigo?
- Vai lá ver que eu espero, vai!
- Caramba, Espelhinho! Você demorou muito. 15 minutos!
- É que eles me deram o presente.
- Foi o negócio de futebol mesmo?
- Não.
- Não? Maldade...
- É que eu menti pra você. Eu pedi patins de presente!
- Patins? Que legal! Mas você é mó mentiroso, hein, Espelhinho?
- Ah, é que eu queria fazer uma surpresa pra você.
- Pra que que você pediu isso também?
- Pra treinar as manobras com você, quando você ficar na frente do espelho, quer dizer, na minha frente, se olhando.
- Olha aqui, Barton! O exame deu positivo, amor!
- Ouviu isso, Espelhinho? É a minha mãe,ela tá feliz. Mas que negócio é esse de positivo? Eles compraram um notebook novo?
- Sei não.
- Dudinha! Maria Eduarda! Vem aqui, vamos pra praça pra comemorar!
- Agora você ouviu o meu pai, Espelhinho?
- É, ouvi. Vai lá, garota!
- Vou sim. Vai que ela muda de ideia...
- Vou lá também. Vou passear aqui do lado de dentro, no mundo do espelho, com os meus pais, eles falaram agora.Vou pra praia.
- Ué, tem praia aí do lado de vocês?
- Claro que tem!
- Tá, Espelhinho.Vai lá, vai!
- Vou sim, Duda. Tchau!
- Tchau!
FIM.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

E ME DEIXA COMER

- Jorge
- Fala, Cláudio.
- Tô bolado com um negócio aí...
- Então fala, pô!
- É a minha mulher, cara. Ela tá mudando muito.
- Ih, Claudião... Acha que tá levando chifre, é?
- Não, caramba! Nada a ver com isso.
- Então é o que, pô? O que lhe preocupa tanto assim? Olha o seu prato. Você nem começou a comer! A hora tá passando... Daqui a pouco a gente volta pro escritório.
- É que ela tá muito liberal...
- Liberal em que sentido? O que ela andou lhe sugerindo?
- Não, não é sacanagem, não, porra!
- Fala logo, cacete! Eu fico aqui falando com você e não como. Para de ficar "cozinhando", porra"!
- Aqui, cara. Olha a foto do que ela comprou e quer usar.
- Ca... Caramba!
- Que foi?
- É pequeno, hein?
- Tá vendo? Até você se assustou.
- Não, pô! Não é isso. Eu não estou assustado. É que me surpreendeu a esposa de um cara tão chato como você querer usar algo tão pequeno.
- Chato é o cacete, pô! Mas agora me diz: isto é biquíni que uma mãe de família use?
- Olha esta foto aqui no meu celular.
- Porra, é a sua mulher?
- De costas não dá pra ver a cara, não é? Mas é ela, sim. Não é menor do que o da sua esposa?
- Porra, você a deixa ir assim com você à praia?
- Deixo e gosto. Se bem que eu não mando porra nenhuma. Ela é dona do próprio nariz, trabalha, ganha praticamente o mesmo que eu; usa o que quiser e eu não tenho nada a ver com isso.
- Cara, você é muito moderno.. Mas você disse que gosta. Foi isso que eu ouvi?
- É, eu gosto de vê-la nesse biquíni da foto.Costumo dizer que nele ela tapa o cofrinho e deixa a Casa da Moeda toda à mostra. Aliás, fui eu que comprei. Eu compro quase todos.
- Vo.. você tá de sacanagem comigo?
- Tô lhe falando...Antes ela usava biquínis comuns; isso quando se bronzeava, que era muito de vez em quando. Naquele fim de mundo onde a gente morava era difícil, não tinha clube e a praia mais perto dali estava sempre muito poluída. Além disso o povo dali que nos era mais chegado só falava em igreja. Tipo lavagem cerebral, mesmo. Mal chegamos pra morar aqui mais perto e fomos logo à praia. Só que ela ainda tinha aquele ar provinciano, meio de roça. Só biquíni tapa-bunda... E aí eu resolvi compra um menor. Ela de início não queria, masacabou usando e eu fui comprando uns cada vez menores. Até chegar a isso aí que você vê.
- Eu vejo é quase nada aqui, Jorge!
- Deixa a sua mulher usar um fio dental, Cláudio! Deixa de ser chato, caretão...
- Porra, todo mundo fica olhando!
- E daí? O que é bonito é pra ser visto!
- É o cacete! Nenhum malandro vai ficar olhando a bunda da minha mulher assim, não! Eu não sou otário.
- Porra, assim você me ofende!
- Desculpa, mas é inevitável, véi! Como alguém deixa a esposa usare, pior, comprar pra ela um biquininho desse?
- Você não gosta de olhar a mulher dos outros?
- É.
- E a minha mulher não fica gostosa nesse biquíni?
- Qua'é, Jorge?
- Só estou lhe fazendo uma pergunta!. Custa responder?
- Pô. eu lhe respeito, cara...
- Olhar não tira pedaço, cacete! Responde logo, vai! Vou ficar puto mesmo se você me atrasar pro escritório.
- Tá.
- Tá, o quê?
- Tá, ela é gostosa! Aliás, eu sempre achei a sua esposa gostosa.
- Então, olhar tira pedaço?
- Não, mas fiquei sem graça.
- Deixa a sua esposa ser feliz, Cláudio! Deixa ela usar o que quiser! Eu não fico regulando as roupas que a minha usa, não. E é cada uma menor que a outra. E cada decote... Mas eu já fui ciumento. Não como você, claro! Você beira a neurose. Nunca fui assim, mas já impliquei. Hoje eu até gosto de ver a minha mulher chamativa, provocante.
- Você é pervertido, Jorge!
- Que mané, pervertido? Eu deixo a minha esposa ser feliz, sensual, se sentindo gostosa, desejada. Deixo-a livre pra não perdê-la de vez. E o sexo, então... Enquanto isso está você aí, travadão. Desse jeito acaba tomando uma bola nas costas...
- Vira essa boca pra lá!
- Não, é sério. Você é muito inseguro, cara! Tem que relaxar mais, usar a Lei de Marta Suplicy.
- Ley de Marta Suplicy?
- É, relaxa e goza...
- Ah, não sei, cara...
- Vai dizer que ela não reclama deste seu jeito?
- Reclama, fala que assim não dá; que me ama, mas vai acabar me deixando.
- Pois é, é aquilo o que eu disse: quanto mais prende, maia perde. Muda enquanto é tempo, cara! Deixa a sua esposa usar logo esse biquíni da foto... E para de controlar o que ela veste, vai!
- Caramba, cara, você tem razão! Eu estou estragando o meu casamento por causa de ciuminho  babaca.
- E aí, vai deixar?
- Vou.
- Depois, quando você vir a marquinha, vai acabar gostando.
- Não gosto muito desta ideia, não, mas vou ceder.
- E me deixa comer.
- O quê?
- A comida, cara...
FIM.
DONA VILMA
- Oi, Dona Vilma.
- Pois não, seu Haroldo?
- É que eu quero lhe pedir uma coisa.
- É sobre as eleições. Quero uma recontagem de votos.
- O quê?
- Sim, é isso! Quero, como candidato derrotado na última eleição para síndico e morador deste condomínio de 320 apartamentos, a garantia de que tudo correu bem nessa eleição.
- Mas, por quê?
- Porque eu e muitos condôminos daqui temos dúvidas em relação ao resultado que garantiu a sua reeleição; ainda mais depois que a senhora passou a usar essas benditas urnas eletrônicas!
- O senhor está desconfiando de mim?
- Eu e quase a metade dos condôminos.
- Mas isso é um absurdo!
- Absurdo ou não, é um direito nosso.
- Falta seriedade ao senhor!
- Olha, Dona Vilma, a senhora me derrotou por 51% a 48% dos votos válidos, que foram 300 dos 310 condôminos que votaram. Isso dá 9 pessoas. É muito pouco...
- Mas não tem cabimento esse negócio! Nenhum morador veio falar disso comigo.
- Se a senhora entrar no meu Facebook... Aliás, o que foi aquilo que fizeram comigo durante a eleição, hein? Até inventaram que eu envenenei aqueles gatos durante a eleição, apesar de terem visto o seu sobrinho dando comida pra eles. Pois puseram o meu nome com a minha foto no face e o troço viralizou. Como traduziram o post, até em Inglês eu recebi ameaças.
- Eu não tenho nada a ver com isso, não sabia de nada!
- Eu já ouvi isso antes... Mas, se a senhora vir a minha página vai perder a conta com tanta reclamação sobre as urnas. Tanta gente que quer que a senhora acabe logo com essa dúvida.
- Não, isso não tem sentido!
- Lhe seria bom também, pra poder provar que a sua vitória foi legítima.
- Não, esse prédio não é Venezuela, nem Bolívia! Somos uma democracia.
- Ah, tá bom... mas a senhora não vai, não é? Então eu não vou lhe deixar em paz, vou ser uma oposição pior que a senhora fez quando eu era síndico e arrumei as finanças do prédio! Vou começar questionando o cabide de empregos que a senhora pôs aqui no condomínio pra empregar seus parentes e seus amiguinhos! E aquela cocaína toda que a PM achou na sala de máquinas? Engraçado que o inquérito ficou engavetado... E logo na delegacia onde o seu filho é delegado! E a sua amizade com aqueles síndicos ditadores, inclusive o boliviano traficante?
- O senhor não se atreva!
- Todo mundo está dizendo que vocês têm um projeto de se perpetuar no poder nesses prédios aqui das redondezas.
- Olha aqui, o senhor já passou dos limites! Vou chamar a polícia!
- Aquela que desceu o cacete na gente quando estávamos no pátio protestando? A do batalhão onde entrou o seu primo como comandante?
- Cala a boca!
- Então a senhora me responda: vai recontar os votos ou vai fazer como o seu síndico vizinho?
- Nãããããõooo!!!!
- Pois a senhora saiba que eu vou levar todo mundo na próxima reunião. Não vai ter moleza. Vai ser, como eu já disse, a pior oposição que a senhora já enfrentou!
- O senhor tome cuidado! Não brinque comigo...
- Não tenho medo das suas ameaças, Dona Vilma! E a senhora passe bem!
- Pois eu quero é que o senhor passe mal, mesmo! Tchau!
FIM.

sábado, 20 de dezembro de 2014

ACORDA!
- Oi! O quê? O que é isso?
- Acorda, seu vagabundo!
- Quem tá falando?
- É o seu colchão, energúmeno!
- Que brincadeira idiota é essa? Pegadinha, é?
- Que pegadinha! É  a vera, parça...
- Cadê a câmera?
- Câmera? Não tem câmera aqui, não.
(gritando): - Isso é sacanagem, hein? Quem fez isso? Vou olhar debaixo da cama, deve ter alguém escondido. O som vem daí. Ih, não tem nada aqui embaixo! Estranho...
- Acredita agora?
- Claro que não! É brincadeira que fizeram comigo, armação. (gritando)Aparece aí, vai! Vocês não me enganam com essa história de colchão. Isso não fala, não mexe. Só serve pra gente dormir em cima
- Olha, ontem à tarde eu já tive que pôr pra correr daqui a sua gata, que ficava afiando as garras em mim. Agora vou fazer o mesmo com você. Te prepaaaara!
- Qual foi? Por que tá balançando?
- Eu avisei pra você...
- Essa pegadinha é boa, hein? Será que eu vou ficar famoso?
- Famoso é o cacete!
- Vou entrar na pilha, então. E aí, colchão, o que você quer comigo?
- Tira o lençol aí embaixo do travesseiro.
- Tá bom, você que manda!
- Isso!
- Meu Deus, você tem olhos, nariz e boca!
- Bu!
- Sai! 
- Olha aqui, seu vagabundo, seu energúmeno, seu mentecapto! Já são onze da manhã e eu tenho que aturar você em cima de mim. Onze horas! Enquanto você dorme aí, o povo trabalha lá fora. Sua mãe e seu pai estão lá, ralando pra lhe bancar!
- Quer dizer que além de você ter cara feia, dá bronca também?
- É que eu estou cansado de ver os seus pais preocupados com você, com o seu futuro. Dando esporros, dando conselhos. Tudo em vão.
- Mas isso é problema nosso, não seu.
- É meu também! Você fica dez horas em cima de mim. Se ainda fosse um doente, alguém que precisa... Mas é só a doença da preguiça! E estes lençóis, esta fronha? Tudo fedendo! Faz uma semana que eles estão aqui. Eu gosto de limpeza, não sou que nem você!
- Ah, Colchão, esqueci...
- Caramba, você é preguiçoso, mesmo! Assim não vai vencer na vida, vai ser um loser.
- Meus pais vão sempre me bancar, Colchão...
- Você acredita nisso? Pois ontem mesmo eu recebi a ligação, quando você deixou o sem fio aqui, de um primo meu, um colchão de um casal que morava na Tijuca e foi morar em Santa Cruz, ou melhor, numa comunidade da periferia de Santa Cruz, porque os pais dele se cansaram de sustentar os dois. Quer dizer, nem foi culpa da coitada; ela trabalha e ganha pouco e começou agora a estudar Edificações, mas pagou pelo erro dele também. O cara não soube aproveitar a educação que os pais deram pra ele e nem procurava trabalhar decentemente, se firmar num emprego, e os dois se encheram. Eles até disseram que por ela manteriam a ajuda por ela ser uma menina esforçada, mas não queriam sustentar mais o filho vagabundo, um irresponsável de 35 anos. E ela já está quase desistindo dele...
- É mesmo, Colchão?
- É. Agora veja a sua situação: 21 anos, só com o ensino médio, sem qualquer qualificação pra o mercado de trabalho e sem vontade de trabalhar.
- Mas eu estava trabalhando! É que eu ainda tava na experiência e eles resolveram diminuir o número de funcionários...
- Quem você quer enganar com esse seu discurso? É isso o que você põe quando preenche as fichas de emprego?
- Mas é a verdade...
- Você sabe que na verdade a culpa pela sua demissão naquele escritório foi sua, mesmo. Cacete, trabalhando no Centro da Cidade, 20 minutos de metrô daqui de Copacabana, só de segunda a sexta, com direito a feriadão, Carnaval, recesso de Natal e Ano Novo e você desperdiça?! Vai dizer que o trabalho era ruim?
- Tirando o salário, não. O ambiente era ótimo, todo mundo se respeitava ali e eu fiz um monte de parça.
- Quanto ao salário, é assim mesmo. No começo é pouco, mas à medida que você se esforça e estuda alguma coisa que sirva no serviço você cresce na empresa. Só que tem que ter paciência, não é?
- Caceta, você fala que nem a minha mãe!
- É que isso é tão óbvio que todo mundo que é sensato fala o mesmo, rapaz.
- É, o Xande me mandou a mesma letra...
- É aquele seu amigo que estuda Marketing?
- É um que se forma agora no fim do ano. Já estagia há algum tempo numa agência pica e pelo visto vai ser contratado por ela.
- Mas você não ia estudar isso com ele? Não fez o vestibular também?
- É que ele passou e eu, não. É que eu sou burro...
- Burro, não. Preguiçoso, indolente, sim. E, além do mais, você podia ter estudado numa faculdade particular. Você não queria era estudar.
- Nada a ver, Colchão...
- É preguiçoso, sim! Não entendo como um cara tão inteligente, tão perspicaz como você está assim, sem evoluir.Nesse nosso tempo de convivência eu tenho notado o quanto você enxerga além dos outros. Aquelas suas teorias da conspiração, por exemplo: antes do Edward Snowden surgir você já escrevia no Facebook que o pessoal que usava a Internet estava sendo espionado. Não deu outra...
- Essa eu acertei, mas não fiquei famoso.
- Ficar famoso igual a ele? Pra fugir pra Rússia?
- É, o cara largou até a namorada no Havaí e meteu o pé.
- Tem também essa sua teoria sobre as redes sociais, de que elas foram na verdade criadas pelas grandes nações, EUA à frente de tudo, com o intuito de manipular e monitorar as pessoas. E que caras como o Zuckerberg são apenas testas-de-ferro. Fora o questionamento que você faz sobre a morte do cinegrafista da Band. Como é que o sujeito que atirou foi filmado em todo o trajeto e menos no momento em que atira no Santiago com o rojão? E aquele que se vestia igual ao acusado e estava conversando com policiais momentos antes do crime? E a história dos Black Blocs? Só eles aparecerem que tudo melou nas manifestações.
- É, eu e uma meia dúzia reparamos as coisas...
- Então, cara? Você tem potencial, pode ainda ter um futuro decente, e não esse aí que lhe espera. Já pensou ter que sair de Copa e ir morar na periferia de Santa Cruz? Ou Japeri, ou Queimados, sei lá.
- É sinistro...
- Cara, eu não tenho bola de cristal, mas é o que provavelmente lhe espera se você não mudar agora o rumo da sua vida.
- Então eu faço o que, Colchão?
- Só vou lhe dar a dica porque gosto de você, cara. Seguinte: ontem à tarde eu também conversei com outro colchão amigo meu...
- Mó fofoqueirão você, Colchão! Vai disparar a conta do telefone e vão me culpar...
- Você quer que eu pare de falar agora? Se quiser, eu paro.
- Não, pô, fala aí!
- Então... - e não se atreva a me interromper de novo! - o cara que dorme nele é o dono de uma produtora pica, top de linha, de filmes.
- E daí?
- E daí que ele tá precisando de gente pra trabalhar ali.
- E é pra que, assistente de produção?
- Não, ele está desesperado atrás de um office boy. O antigo foi promovido.
- Porra, Colchão, office boy...
- Parça, é pegar ou largar esta chance. E, mesmo que indiretamente, você vai trabalhar com cinema e televisão, principalmente.
- Eu nunca vou ter chance de trabalhar diretamente com isso...
- Tá vendo como você é, cara? Além de preguiçoso, é pessimista! Claro que você pode se dar bem lá dentro. É só se esforçar, não fazer só o seu, ser polivalente.
- É, Colchão, você tem razão...
- E então, vai querer ou não? Olha que tem que ser rápido...
- Tá, vou lá ver o emprego. Fala aí o endereço.
- Cara, por coincidência a sua mãe ia falar desse emprego com você. Quer dizer: ela falou, não é? Só que você acordou, mijou e voltou pra aqui. Foi uma amiga dela que avisou. O endereço tá lá na mesa da sala.
- Porra, Colchão, você é parça, mesmo!
- Eu faço isso por mim também, cara! Quero que você me dê um pouco de descanso, fique menos horas em cima de mim.
- O que eu faço pra retribuir isso, cara?
- Primeiro: fecha essa porta do quarto, pra idiota da sua gata não me furar e me encher de pêlos. Depois troca esta roupa de cama suja. E por último abre essa merda de janela pra entrar um sol, tirar este cheiro de mofo que tá em mim!
- Valeu, Colchão! Missão dada é missão cumprida.
- Mas agora só fecha a porta e abre a cortina. Quero que você vá correndo pra produtora, pra pegar esse emprego. Mas fala que você tem nível médio de Inglês e não esquece de, se o povo lá já não souber, citar o nome da sua mãe, cara! A amiga dela é a esposa do dono.
- Vou lá, então!
- E olha!
- O quê?
- Se eles lhe contratarem, vê se trabalha de boa, hein? Não vai me deixar e nem a sua mãe mal com nossos respectivos amigos.
- Vou não.
- E nem tente me xisnovar, dizer que eu consigo falar, porque eu sei fingir. Ninguém vai acreditar em você; vai fazer papel de ridículo. E se você insistir, tentar arrancar a verdade, vai se dar mal. Eu tenho amigos, e se algo acontecer comigo, você nunca mais vai poder dormir num colchão.
- Pô, Colchão, me ameaçando? Vou fazer isso contigo, não!
- É só por segurança, sabe? É que nós colchões somos uma espécie de irmandade, na pior das hipóteses uma máfia. Ou você nunca ouviu sobre gente que morreu dormindo? Às vezes de infarto, outras caindo da cama...
- Calma, Colchão, sem noia! Não vou lhe xisnovar, já falei.
- Só por garantia, mesmo. Sem ressentimentos...
- Fiquei até com medo de você agora...
- Mantendo o nosso segredo, não precisa ter medo.
- Tá bom.
- Isso! E vai logo ver o emprego, vai!
- Valeu, fui!
FIM.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

À BEIRA DA PISCINA 
- Alô?
- Gostosa!
- O que é isso? Quem tá ligando?
- Um cara que adora lhe ver, um voyeur.
- Ô seu tarado! Não tem o que fazer? Vai procurar uma mulher, seu onanista!
- Eu prefiro ficar observando você aí, à beira da piscina, "tomando" um solzinho...
- É só na covardia, no cinco contra um, não é?
- Você deveria gostar de receber homenagens...
- Gostar? Eu não preciso disso, seu tarado! Eu tenho um marido ótimo, que me satisfaz.
- Se ele lhe satisfizesse mesmo, não deixaria intacta uma loura maravilhosa como você, seminua...
- Ele está na empresa dele, trabalhando muito! Até queria, mas não podia ficar aqui comigo. E eu não estou nada seminua! Estou de biquíni.
- Esse micro fio-dental que você usa agora? Atrás ele só cobre o cofrinho e mostra toda a Casa da Moeda e na frente é quase um tapa-sexo...
- Olha aqui, seu idiota! Eu estou na minha casa; posso até ficar nua, se quiser.
- Quem dera que você ficasse nua...
- O que você quer comigo, seu doente?! Olha que eu chamo a polícia, hein?
- Só porque eu estou lhe admirando?
- Não. É porque você é um tarado, uma ameaça!
- Ameaça? Eu só quero lhe ver, não sou um estuprador.
- Eu já falei demais com você, vou desligar!
- Você já o teria feito, se quisesse mesmo.
- O quê?
- É isso mesmo que você ouviu. Você gosta de saber que está sendo observada, desejada...
- Que absurdo!
- Você gosta de ser chamada de gostosa, de saber que tocam umazinha pra você.
- Você é louco mesmo!
- Louco de tesão, com o pau duro a tanto tempo por ver você que daqui a pouco tem priapismo.
- Pois tomara que tenha mesmo! Que o seu pau, seu tarado, fique duro por tanto tempo que lhe deixe broxa logo!
- É só eu parar de lhe observar que com o tempo ele relaxa. Nenhuma das mulheres que eu vejo por aí me deixa assim com tanto tesão.
- Não dá pra eu curtir as minhas merecidas férias sossegada, sem um louco me espiando?
-Você não liga de estar sendo espiada. De vez em quando eu flagro você olhando à sua volta, como se perguntando se mesmo distante a observam. Não lhe dá tesão saber que lhe olham e lhe desejam?
- Não preciso disso! Me basta o meu marido me desejando.
- Toda mulher gosta de ser admirada, desejada. Vivem reclamando das cantadas, mas quando não ouvem mais gracinhas nas ruas sentem falta. E tem muito homem que se diz ciumento, mas gosta de ver a sua namorada ou esposa bonita, chamativa.
- Mas duvido que gostem de tarados como você babando ao vê-las de biquíni.
- Eu vejo umas mulheres acompanhadas com uns biquínis... E os seus pares não fazem cara de que não estão gostando, não. Acho até que eles sentem tesão de vê-las expostas daquele jeito...
- Você é muito pervertido! Ainda bem que o meu marido não é assim.
- Quem lhe garante?
- Eu o conheço bem, tá!
- Tá bom... Mas vamos esquecer um pouco esse cara que não é capaz de se atrasar pra comer você aí mesmo, na piscina. Um cara que só lhe dá um beijo e vai embora.
- Você me observa mesmo, hein? Mas como, se a vista da minha casa não é defasada? De onde você poderia estar me observando?
- Não adianta que eu não caio na sua armadilha! Sei da sua rotina, mas você não vai saber onde estou e quem eu sou. Não por enquanto.
- O que mais você sabe sobre mim?
- Que você não gosta de ir à praia porque se acha gorda. Vejo o seu marido arrumando as coisas pra ir lá com o seu filho e reclamando que é frescura sua isso, que o seu corpo é bonito, que o que é bonito é pra ser visto...
- Mas eu sou gorda. Malho pra caralho, mas sou gorda.
- Você é larga; esta é a sua estrutura física. Uma gorda esbelta, que tem cinturinha, curvilínea.
- Gorda, não. Gordinha...
- Gordinha é eufemismo! Assuma o seu tipo físico. Você é gorda e gostosa ao mesmo tempo, porra!
- Você fala igualzinho ao meu marido... Como ele, só quer me agradar.
- Se você não se acha gostosa não é problema meu! Isso não vai tirar o meu tesão por você.
- O que você quer comigo, afinal?
- Quer saber mesmo?
- Claro, quero! Fala, pra acabar com isso.
- Faz um topless pra mim.
- De jeito nenhum!
- Por que não? Não tem ninguém olhando mesmo...
- Pro meu marido eu faço, não pra um desconhecido.
- Tira, vai! Ninguém vai saber.
- Não, nem pensar!
- Vai me dizer que não acha isso excitante?
- Si... quer dizer, não!
- Quase que você se entregou... Tira, vai!
- Não.
- Vou desligar, então. E você não fala comigo nunca mais. Você já viu que o meu número é restrito.
- Ah, não sei... Nem te conheço.
- Tira, tira, tira...
- Tá bom! Mas é só isso, hein?
- Você não vai fazer nada que não queira. Mas tira, vai! Eu espero.
-  E agora que você já viu o que queria, está satisfeito?
- Eu já tinha os visto antes, mas assim é diferente. Assim eles ficam mais bonitos, mais sensuais.
- Como você já viu os meus peitos?
- Você anda bem à vontade em casa...
- Absurdo... Agora vai me deixar em paz?
- Quer?
- Quero.
- Então vou desligar. Tchau...
- Não!
- Não desliga?
- É...
- Então vamos continuar a brincadeira.
- O que você quer agora?
-  Bottomless.
- Tirar tudo, não!
- Somos só eu e você, ninguém mais pode ver a gente. Tira, vai...
- Será que os meus peitinhos não são o suficiente pra você, seu onanista, seu punheteiro?
- Peitinhos? Meu pau encaixa aí direitinho. Faço uma bela espanhola neles...
- Chega, seu tarado! Se divirta com esta cena...
- É pouco pra mim! E pra você também, que eu sei.
- Ah, não sei, isso é loucura...
- Usa depois como fantasia no sexo com ele...
- Isso é sacanagem com ele...
- Pra ele vai ser só uma fantasia, não precisa contar a verdade.
- Ah, não sei...
- Tira, porra!
- Ai, calma!
- Calma é o caralho! Tira essa porra desse quase tapa-sexo que você tá usando, merda!
- Ai, tá bom...
- Tô aqui esperando ansiosamente, como um adolescente.
- Gente, que loucura! Eu fiquei peladinha pra um desconhecido...
- Que bocetinha linda você tem!
- Você gostou?
- Claro que sim! Toda depiladinha, toda trabalhada no brazilian waxing...
- Eu prefiro assim, é mais higiênico.
- Eu também. Não esfola o meu pau e tem um gosto melhor.
- Hmmmm...
- Você deve estar toda molhadinha, não é?
- Você sabe que sim.
- Prova um pouquinho por mim.
- Um pouquinho do quê?
- Põe a mão na xotinha e leva à boca, vai!
- Isso é nojento!
- Faz, vai!
- No way!
- Não? Então, tchau...
- Espera!
- Vai fazer o que eu pedi?
- Vou. Hmmmm, aiiii!
- Isso, esfrega bem o dedinho aí! Tá bom, muito bom... Agora chupa, vai! Chupa como se você fosse uma puta gulosa com o meu pau na boca...
- Hmmm... Ai, que delícia!
- Caralho, você é um tesão! Quantos anos você tem, hein?
- Uma mulher não conta a sua idade pra qualquer um, não!
- Você fica peladinha pra mim, prova a bocetinha e não quer me contar a sua idade?
- Tá bom, 42 anos...
- Pensei que tinha no máximo uns 36.
- Obrigada.
- Eu é que agradeço pelo espetáculo.
- Acabou? Vai desligar?
- Não, é cedo ainda!
- Ah, bom!
- Mas então eu vou querer que você se masturbe.
- Nem sozinha eu já fiz isso!
- Então perde o cabaço comigo, vai!
- De jeito nenhum!
- Você tá louquinha pra fazer! Pega a sua mãozinha esquerda e faz pra mim, vai!
- Como você sabe que eu sou canhota?
- Observando.
- Você sabe demais de mim...
- É. Mas toca logo essa porra dessa siririca, caralho!
- Calma, não precisa ser grosso!
- Grosso? Quando estivermos sozinhos você vai ver como sou grande e grosso. E chega de conversinha, hein? Mete logo o dedo do fio terra na rachinha e esfrega bem esse clitóris, sua putinha!
- Hmmmm...
- Isso, se imagina dançando nuazinha no palco de uma boate! Pensa que tem um monte de gente na plateia, um monte de caras de pau duro por você...
- Ai, eu já tive esse tipo de fantasia com o meu marido...
- Pelo menos ele é criativo, não é? Mas esquece o cara, porra! Deixa só a gente aqui. Agora você está toda abertinha, se esfregando na barra do poll dance...
- Delícia... Eu já trepei várias vezes com essa fantasia.
- Isso, toca, vai! Agora eu sou o segurança da boate que tá louco pra lhe "comer". Aí você passa nuazinha por mim no corredor.
- O que você vai fazer comigo, seu safado?
- Nada que você não queira.
- Como assim?
- Exatamente: como. Mas primeiro eu lhe pego pelo braço, meto a mão na sua bocetinha e toco uma siririca em você.
- Você vai me agarrar, seu tarado?
- Como já disse, não vou fazer nada que você não queira.
- Continua.
- Aí vou "arrastar" você pra dentro de um quartinho que quase ninguém na boate conhece, vou lhe chupar todinha, vou pôr você pra chupar o meu pau, vou meter na sua bocetinha e terminar comendo o seu cuzinho.
- Ai, o cuzinho não! O cuzinho dói...
- Vou botar com jeito.
- Então tá.
- Agora vai, sua vadia! Isso, toca, se masturba, vai! Imagina eu fazendo barba, cabelo e bigode em você; o serviço completo...
- Ai, que delícia! Ai, ai... aaaaiiiiii!
- Isso, vagabunda! Goza bastante, vai! Goza aí que eu gozo aqui...
- Caralho, que delícia! Não sabia que siririca era tão bom assim.
- Foi bom também pra você?
- Adorei!
- Vem me encontrar, então!
- Na.. não! Isso, não! Isso já é passar demais dos limites; eu sou fiel a ele.
- Vem, vai... Você não vai se arrepender.
- Não, chega! That's enough!
- Então tá bom, nunca mais lhe ligo.
- Só porque eu não quero lhe dar, você não vai mais me ligar?
- Se assim já foi tão bom, imagina quando a gente se encontrar?
- Então tá bom, eu vou lhe encontrar. Mas ainda não decidi se vou lhe dar, tá?
- Como você quiser.
- Onde, então?
- Sabe o motel Manchete?
- Aquele do slogan "Aconteceu, vem pro Manchete."?
- Isso. Sabe onde é, né?
- Sei. Há tempos que ele não me leva lá...
- Pois eu lhe encontro lá na esquina daqui a uma hora. Quando eu chegar, dou três buzinadas e aceno.
- Tá bom, a gente se encontra lá.
- Não vejo a hora, gostosa! Tchau!
- Tchau.
Uma hora depois:
- Oi.
- Oi. Lhe liguei pra dizer que eu vou me atrasar um pouco. É que o trânsito... Você sabe como é aqui no Rio de Janeiro, ainda mais pelas bandas da Barra.
- Que bom que você ligou.
- Por quê?
- É que eu não quero mais...
- Como assim?
- Não quero, não quero mais! E amo demais o meu marido e só consigo fazer sexo com ele! Desde que demos o primeiro beijo, há 18 anos, que eu não sei o que é outro homem. Tudo bem que esfriou um pouco nos últimos tempos, mas não é nada que não possamos resolver com, sei lá, uma boa viagem às praias do Ceará.
- Foi tão bom pelo celular. Imagina quando a gente se tocar.
- É diferente. Aquilo foi só uma fantasia, isso já é dar um passo muito adiante; não estou preparada pra isso.
- Então quer dizer que você só me usou pra realizar uma fantasia, não é? Pra depois gastar com o oficial...
- Não, não é nada disso... Olha, vamos parar por aqui! Isso já foi longe demais. Não quero traí-lo e pronto!
- Quer dizer que eu não tenho nenhuma chance com você?
- Não.
- Que pena! Seria ótimo o nosso sexo.
- Tchau.
- Tchau, minha loura gostosa!
(Falando sozinha dentro do carro): - Foi melhor assim. Nunca traí o meu Sávio e não seria agora que eu o faria. Se não está bom, é melhor sentarmos e conversarmos. Trair, nunca! Ué, três buzinadas? E ele está acenando ali do carro? Eu não falei pra esse imbecil que não ia rolar?! Que escro... Sávio? É o Sávio ali no carro? Mas como assim? Será que ele me seguiu? Ele tá sinalizando pra entrar no Manchete. Ai, Meu Deus!
Cinco minutos depois:
- Oi, Sávio.
- É só isso que você tem pra me dizer?
- Vamos primeiro sair daqui e entrar na suíte, vai!
- E agora que a gente já está na suíte, desembucha, vai, mulher!
- Eu é que tenho que perguntar. O que você estava fazendo ali?
- Não vou inventar mais, Sinara. Era eu ao telefone.
- Você?
- É, eu! Nunca imaginei que você aceitaria aquilo tudo, que ficaria nua pra um desconhecido que você não sabia nem qual era a cara. Que se masturbaria pra ele ver e por pouco não estaria aqui fodendo com ele!
- Mas era você!
- Eu sabia disso. Você, não!
- Olha, eu não queria, mas vou ter que fazer que nem uma personagem do Nelson Rodrigues: é que eu estou frustrada, você não é mais o mesmo! Há quanto tempo que você não toca uma punheta na minha frente, por exemplo?
- O que está faltando pra você, Sinara?
- Ah, sei lá! Você não é mais o mesmo, não tem mais aquele jeito sacana, não tem tantas fantasias no nosso sexo, não vamos mais ao motel... É só trabalhar, trabalhar... ! Não tem ninguém ali pra lhe substituir de vez em quando? E hoje? Você, como tem sido ultimamente, só me deu um beijo, que não foi nem de língua, de despedida. Porra, eu entrei de férias! Estou ali me bronzeando seminua pra você, e só um beijinho? E sem língua?! Olha, você não é o culpado de tudo, mas tem deixado a desejar, deixou o nosso casamento cair na rotina.
- Por que você acha que eu fiz isso hoje?
- Sei lá! Pra me testar, eu acho.
- Tudo bem, não vou mentir. Foi também pra isso, mas a priori eu só queria brincar. Eu ia me identificar, porque eu queria o tesão daquilo, mas aí...
- Mas aí o que, Savio?
- Daí que eu resolvi lhe testar.
- Me testar? Você não confia em mim?
- Agora eu confio. Mas só em você não dar pra outro.
- E você acha certo tudo isso o que você fez? Até a voz você mudou!
- O que eu acho é que eu estou cheio de tesão por você.
- Você se masturbou mesmo?
- Nunca toquei uma punheta tão gostosa! Nem nos tempos de moleque. Mas não gozei, só tive aquela sensação boa...
- E de onde você me olhou?
- Daquela casa que está à venda. Peguei a chave com o proprietário.
- Aquela que você fotografou o telefone no outro dia? Que disse que era pro amigo?
- Pois é, fiquei ali lhe espiando.
- Mas ela é longe...
- Eu usei binóculo pra enxergar melhor, não perder nenhum detalhe. Deu pra ver direitinho você tocando aquela siririca, o movimento do dedo fio-terra passando no seu clitóris...
- Você adora o meu fio terra, hein, Sávio? E eu que achava que você não era mais safado... Tô vendo que você ficou pior.
- Você ainda não viu nada.
- Vamos viajar um pouco, amor! O Luiz já tem 16 anos, os meus pais moram perto da gente e podem ficar com ele enquanto a gente viaja sozinho pras praias do Ceará. Depois vamos pra Tambaba...
- Acho ótimo. Vou providenciar isso lá na firma, preparar o gerente Oswaldo pra tomar conta de tudo. Porra, todo mundo ali tira férias, menos eu!
- Isso, adorei! Mas e agora, o que vamos fazer?
- Você sabe. Vamos aproveitar a suíte, esta piscina...
- Seu pervertido! Vai me mostrar que é grande e grosso, vai?
- Tá bom assim? É grande e grosso o suficiente pra você?
- Deixa eu pegar pra ver, seu punheteiro, seu covarde, seu onanista...
- Vai, sua cachorra, sua exibicionista! Pega no meu pau, vai! Caralho, que delícia...
- Te amo, Savio!
- Eu também te amo, Sinara!
FIM.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

SÓ ISTO IMPORTA

Futebol
Paixão?
Só para o torcedor
Que até chora
Quando perde a seleção
Gasta o que tem e não tem
Pra ver o país campeão
Porque pra eles, véi
Tudo é money
Muita corrupção

E dá-lhe cambistas de ONGs
Cambistas treinadores
Cambistas jogadores e ex-jogadores
E encabeçando
A Fifa, irmão

E aquela convocação
O cara que nem jogou bem
Mas se valorizou e foi embora
Vendido para um clube de fora

Ah, ainda nem citei
A máfia das apostas
Estranhos erros dos juízes
O zagueiro que "fura" a bola
O seu time não ganhou
Mas alguém ganhou

Pois é
Enquanto você torce
Lamenta a derrota
Ou comemora a vitória
Vê o jogo com emoção
Eles contam as notas
Só isto importa
NÃO RACIONALIZE O TESÃO

Não racionalize o tesão
Deixe-se levar pela emoção
Não seja tão racional
Às vezes é bom ser visceral

Sai dessa cozinha
Que um pouco no dia
Tome o poder a lascívia
Abaixo a "autorrepressão"

E pra sair da teoria
E ir para a prática
Tenho uma ideia genial
Vamos à praia, que tal?

Ponha este fio dental
Joga fora aquele biquinão
Deixa de ser tímida
Se é bonita é pra ser vista

E depois vou ver sua marquinha
Lhe fazer de refeição
Tê-la como prato principal

E se pergunta a vizinha:
"Cara boa. Foi comida?"
Diga: "Fui sim, vizinha."